Abrir negócio no Brasil tem lado bom e ruim para empresários
Um ditado popular muito citado por brasileiros que migraram para Miami resume que morar nos Estados Unidos é bom, mas é ruim, enquanto viver no Brasil é ruim, mas é bom. O conforto do exterior contrasta com o calor humano nacional, um paradoxo que também se aplica ao ambiente corporativo após décadas de experiência na administração de empresas.
Os principais desafios do mercado nacional
O cenário para novos negócios no país é marcado por severas dificuldades. As empresas enfrentam juros altos, crédito caro, insegurança jurídica, violência urbana e um sistema tributário caótico. A isso se somam normas que variam conforme a localidade, já que o território brasileiro conta com 5.569 municípios com autonomia para criar regras próprias.
Conflitos trabalhistas e burocracia
A operação corporativa exige o domínio de licenças, fiscalizações e exigências legais que drenam recursos antes mesmo da primeira venda, desviando energia que poderia ser direcionada para a inovação. Além disso, a alta taxa de litígios na Justiça do Trabalho evidencia a dimensão dos riscos e custos que precisam ser administrados rotineiramente.
A barreira contra concorrentes estrangeiros
Apesar de todas as dificuldades, os obstáculos burocráticos acabam desempenhando um papel de proteção indireta ao afastar concorrentes de fora. Multinacionais que avaliam o mercado brasileiro frequentemente concluem que os riscos superam os benefícios, deixando o caminho livre para quem já compreende a dinâmica local.
Essa dinâmica foi vivenciada na prática durante a fundação da Petz no início dos anos 2000, período em que as gigantes americanas do setor não tinham forte presença nacional. A menor pressão internacional permitiu o desenvolvimento de equipes e competências, resultando em operações sofisticadas.
O contraste com o mercado norte-americano
Nos Estados Unidos, a lógica se inverte: o ambiente corporativo é previsível e o crédito é acessível, mas a facilidade de entrada para novos competidores exige reinvenção constante para preservar margens e clientes. Enquanto o desafio brasileiro é conseguir entrar no jogo, o americano é manter a liderança diante da alta concorrência.
Contudo, comemorar as barreiras burocráticas é um erro grave. Embora protejam negócios já consolidados, tais dificuldades repelem investimentos, encarecem mercadorias e obstaculizam o crescimento de novos empreendedores, perpetuando desigualdades estruturais no país.
Embora as complexidades locais tenham favorecido o crescimento de grandes marcas no passado, o cenário ideal exige um ambiente de negócios mais acessível, ainda que isso signifique enfrentar uma concorrência mais acirrada. O sucesso dos pioneiros não pode depender dos entraves enfrentados por quem tenta iniciar uma nova jornada no mercado.
Fonte: Folha - Mercado