Parlamentares do Paraguai exigem saída da cúpula do Banco Central após escândalo
Legisladores de diferentes matizes políticos no Paraguai estão intensificando as pressões para afastar os dirigentes máximos da autoridade monetária do país. A mobilização ocorre em meio a crescentes dúvidas sobre a fiscalização exercida sobre uma instituição financeira digital que apresentou rápida expansão e conexões políticas.
Pressão política e impactos no mercado
Apesar de a atual diretoria ter sido fundamental para a conquista do cobiçado grau de investimento, parlamentares tanto da base governista quanto da oposição formalizaram pedidos para que o presidente Santiago Peña destitua o comando da instituição financeira.
O epicentro da crise envolve o ueno bank, que virou alvo de apuração administrativa após uma aceleração expressiva em suas operações. O atual chefe do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo Spalding, comandou a instituição entre 2021 e agosto de 2023, antes de assumir o cargo máximo do órgão regulador. Além disso, o presidente Santiago Peña manteve sociedade com o grupo controlador do banco até março de 2025.
Em nota oficial enviada à agência Reuters, o Banco Central sustentou que os trâmites regulatórios ocorrem com total autonomia e em estrita conformidade com as normas legais vigentes, rechaçando qualquer acusação de conflito de interesses. A autoridade máxima da instituição acrescentou que Carvallo havia “se declarado impedido” de participar de todas as decisões relacionadas ao ueno bank.
Crescimento acelerado e questionamentos
O ueno bank expandiu sua atuação de forma vertiginosa, transformando-se de uma fintech de nicho em um player de porte médio. A empresa declara possuir cerca de 3 milhões de clientes e gerenciar montantes expressivos em recursos públicos.
O foco das atenções aumentou após a divulgação de um relatório enviado ao Senado. Embora o objetivo fosse esclarecer empréstimos concedidos a empresas associadas ao grupo, o documento gerou ainda mais desconfiança entre analistas, associações do setor e legisladores.
Representantes do ueno declararam publicamente que pretendiam continuar a “cooperar plenamente” com o Banco Central, reforçando que a averiguação preliminar não constitui atestado de irregularidade.
A instabilidade política ganhou força com declarações contundentes de figuras influentes. “A substituição das autoridades do Banco Central precisa ocorrer”, disse o senador governista Gustavo Leite à Reuters. “As pessoas do Banco Central perderam a credibilidade.”
Por sua vez, o parlamentar oposicionista Rafael Filizzola declarou que o sistema financeiro estava “sofrendo” e apresentou novos requerimentos de dados sobre a instituição. Como reflexo da crise, os títulos globais da empresa registraram forte desvalorização, e a agência Fitch Ratings revisou a perspectiva da companhia de estável para negativa.
A Associação de Bancos do Paraguai, que representa 14 entidades privadas, também se posicionou criticamente, classificando as explicações iniciais fornecidas ao Senado como insuficientes.
Conexões e repercussão econômica
O cenário é considerado altamente sensível para o governo, alimentado também por disputas internas no Partido Colorado de olho nas eleições gerais de 2028.
A administração central optou por não se manifestar sobre os desdobramentos recentes. No entanto, em entrevistas concedidas no início de outubro, o chefe do Executivo classificou o episódio como um “transbordamento” de caráter estritamente técnico que acabou politizado, gerando “um dano tremendo à imagem de todo o país”.
O imbróglio coloca em teste a credibilidade econômica de uma nação que recentemente alcançou o grau de investimento pelas agências Moody’s e S&P Global, sustentada por bases sólidas e projeções do Fundo Monetário Internacional que apontam para uma alta expressiva do PIB neste ano.
Fonte: Folha - Mercado