Com Tifanny liberada pela Justiça, Osasco conquista a Supercopa
O Osasco São Cristóvão Saúde levantou a taça da Supercopa Feminina de Vôlei ao superar o Praia Clube com um contundente 3 a 0 no Ginásio Castelinho, em São Luís (MA). O confronto foi marcado pela presença determinante de Tifanny, que assegurou o direito de entrar em quadra poucas horas antes do início da partida graças a um despacho favorável do Poder Judiciário fluminense.
Decisão judicial garantiu escalação sob pena de multa
A participação da atacante foi viabilizada após uma liminar concedida pela 44ª Vara Cível da Comarca da Capital do Rio de Janeiro. Ao deferir o pedido em regime de urgência, o magistrado responsável fixou uma sanção financeira caso a determinação não fosse cumprida de imediato.
“A medida deverá ser cumprida imediatamente, de modo a viabilizar a participação da autora na partida desta data, sob pena de multa de R$ 5 mil por partida em que a autora for impedida de atuar em razão do descumprimento”, afirmou o juiz Antonio Luiz da Fonseca Lucchese, da 44ª Vara Cível da Comarca da Capital do Rio de Janeiro, na decisão que concedeu a liminar à jogadora.
Mesmo com o resultado esportivo sacramentado em quadra, o imbróglio jurídico está longe de um desfecho definitivo. A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) pretende apresentar recurso nos próximos dias para tentar reverter a autorização concedida à atleta.
Mudança de diretrizes e impasse com a CBV
O litígio teve início em agosto, quando a CBV atualizou suas regras internas e vetou a presença de mulheres trans nos torneios femininos sob sua chancela. Anteriormente, a entidade autorizava a inscrição de jogadoras trans desde que comprovassem taxas de testosterona inferiores a 5 nmol/L por meio de terapia hormonal, alinhando-se aos parâmetros da Federação Internacional de Medicina do Esporte (FIMS).
Ao justificar a alteração em seu regulamento, a entidade máxima do vôlei nacional argumentou que o veto “se adequa ao atual cenário regulatório internacional e à necessidade de assegurar alinhamento entre os critérios aplicáveis às competições nacionais e aqueles adotados pelo COI (Comitê Olímpico Internacional), pela FIVB (Federação Internacional de Voleibol) e pela CSV (Confederação Sul-Americana de Voleibol).”
A oposta contestou a resolução e acionou a esfera esportiva para preservar seu espaço de trabalho. “Minha defesa protocolou um mandado de garantia, com pedido de liminar, na Justiça Desportiva, para que eu possa voltar a jogar a Superliga e disputar a Supercopa nesta sexta-feira”, afirmou a jogadora em comunicado.
Em seu desabafo, Tifanny enfatizou os impactos da barreira regulatória sobre sua carreira. “Dediquei minha vida ao voleibol e trabalhei muito para chegar até aqui. Tenho um contrato em vigor, uma equipe e objetivos claros para esta temporada. Por isso, é muito difícil enfrentar uma situação que me impede de exercer minha profissão e fazer aquilo que amo”, acrescentou Tifanny.
“Quero ter o direito de trabalhar, honrar meus compromissos e seguir minha trajetória dentro de quadra. Espero que a Justiça Desportiva analise o caso com a atenção que ele merece e tome uma decisão que me permita dar continuidade à temporada para a qual me preparei com tanta dedicação.”
Antes de obter a liminar para a Supercopa, a jogadora já havia atuado pelo Campeonato Paulista. Na ocasião, a Federação Paulista de Volleyball (FPV) permitiu sua presença sob o entendimento de que a competição regional deveria manter as normas vigentes no momento de sua abertura, anteriores ao novo veto nacional.
“Nosso objetivo é garantir que a Tifanny possa continuar exercendo sua profissão e participando das competições, como faz há nove anos. Ela participou das competições que garantiram o lugar do Osasco na Supercopa, diante disso, é direito da atleta que contribuiu com a campanha estar disputando o campeonato”, assinalou a defesa da jogadora.
Endurecimento internacional e debate científico
O veto implementado no vôlei brasileiro reflete um movimento global de endurecimento nas diretrizes de gênero no esporte de alto rendimento. Entidades mundiais como a World Aquatics (esportes aquáticos), World Athletics (atletismo) e UCI (ciclismo) impuseram fortes restrições nos últimos anos, gerando protestos de coletivos LGBTQIA+ e organizações de direitos humanos.
As federações internacionais costumam sustentar que tais vetos buscam resguardar a equidade esportiva, alegando eventuais vantagens fisiológicas decorrentes do desenvolvimento sob níveis masculinos de testosterona. No meio acadêmico, contudo, a questão segue em aberto: especialistas apontam que ainda inexiste consenso científico conclusivo que comprove vantagens competitivas definitivas de atletas trans após a transição hormonal.
Fonte: Folha Esportes