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Caderno Mercado

Consumo das famílias perde força e deixa de ser o motor do PIB brasileiro

Consumo das famílias perde força e deixa de ser o motor do PIB brasileiro

O consumo das famílias, que funcionou como o principal motor da economia brasileira nos últimos anos, está perdendo tração e deve registrar o menor ritmo de crescimento desde o período da pandemia tanto neste ano quanto no próximo. Com esse pilar da demanda enfraquecido, especialistas avaliam que setores como o investimento e as exportações precisarão assumir o papel de impulsionadores da atividade econômica nacional.

Esfriamento do pós-pandemia Entre 2021 e 2025, o avanço médio do consumo popular ficou em 3,3%. A projeção atual indica uma desaceleração drástica para cerca de 1% em 2025 e patamares ainda inferiores no ano seguinte, comanalistas apontando inclusive riscos de estagnação desse indicador essencial.

O peso do endividamento e do crédito restrito O total gasto pelos cidadãos em bens e serviços responde por 63% do PIB e tem sido freado pelo alto comprometimento de renda e pelo endividamento recorde, além de um ritmo menos intenso no mercado de trabalho e na concessão de crédito. Os dados do Banco Central mostram que o endividamento e o comprometimento de renda alcançaram 49,9% e 28,7%, respectivamente, em julho.

“Vemos o consumo abaixo do que poderia ser por conta das famílias mais endividadas e da renda mitigada pelo pagamento de principal e juros”, afirma Natália Cotarelli, economista do Itaú Unibanco, que vê o consumo crescendo 1,1% neste ano e no próximo. “Além disso, o crédito a pessoas físicas deve continuar desacelerando.”

Para Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do FGV Ibre, o cenário reflete o fim de uma ilusão baseada em estímulos estatais que sobrecarregaram os orçamentos público e privado.

“Consumo é essencial para o crescimento, mas se cresce anabolizado pelo governo, a gente sabe que não acaba bem”, diz. “Essa fantasia que vivemos é fantasia mesmo: a conta chegou. Não temos superávit, o governo está endividado e as famílias estão endividadas.”

Impactos no mercado de trabalho e no PIB O ritmo mais lento nas compras das famílias reduziu as estimativas do Boletim Focus para a expansão da economia no próximo ano, que caiu para 1,41%. Especialistas lembram que a queda histórica do desemprego nos últimos anos não tem como se repetir na mesma velocidade.

“As expectativas para o PIB estão desacelerando, e o principal fator é o consumo das famílias mais fraco”, afirma Felipe Camargo, economista da Oxford Economics. “Os dados de vendas no varejo, principalmente o ampliado [que inclui veículos e material de construção], estão surpreendendo para baixo.”

Ele acrescenta: “Houve uma queda de 10 pontos percentuais na taxa de desemprego nos últimos anos, e isso não se repete. Não dá para continuar gerando emprego formal na velocidade que geramos no passado.”

Na visão de Manoel Pires, coordenador do Centro de Política Fiscal e Orçamento Público do FGV Ibre, a desaceleração é profunda quando se analisa o consumo per capita, que caminha para a estagnação.

“É um dado muito forte para ser ignorado”, afirma. “Houve uma ruptura do comportamento histórico e se chega a uma estagnação, o que ajuda a explicar por que o governo tem bons resultados para entregar, como o desemprego baixo, mas isso não se traduz em boa popularidade.”

Perspectivas de transição econômica Diante do esgotamento do modelo focado nos gastos das famílias, pesquisadores defendem uma mudança estrutural rumo a investimentos produtivos e exportações.

“PIB liderado pelo consumo não é sustentável. Para aumentar o potencial da economia, tem que ser liderado por investimento e ganhos de produtividade”, conclui Silvia Matos.

Fonte: Folha - Mercado