Candidatos novatos tentam enfrentar peso das emendas no Nordeste com redes sociais e voto ideológico

Com posicionamentos definidos tanto à direita quanto à esquerda, novos nomes que disputam vagas no Legislativo enfrentam o desafio de superar um modelo de votação fortemente impulsionado por alianças com prefeitos e verbas de emendas parlamentares, dinâmica que ganhou força nos últimos anos nos estados nordestinos.

O peso das verbas federais e o impacto nos municípios Essa lógica de campanha se aprofundou com a implementação das emendas impositivas, que tornaram a execução dos recursos obrigatória, além da expansão da fatia orçamentária destinada a essas verbas, alcançando a marca de R$ 61 bilhões. O sistema se expandiu durante a gestão de Jair Bolsonaro, com as chamadas emendas do relator, e continuou na administração de Lula por meio das emendas de comissão, ambos os modelos alvos de questionamentos no Supremo Tribunal Federal devido à carência de transparência.

“É estratégico e até racional que os prefeitos apoiem parlamentares que destinam recursos para suas cidades. Isso acontece no Brasil em geral, mas olhando para o Nordeste, grande parte dos municípios é dependente de repasses federais, e as emendas fazem diferença”, avalia o cientista político Vitor Sandes, professor da Universidade Federal do Piauí.

A estratégia digital e o apelo ideológico Para tentar romper com essa forte estrutura tradicional, os estreantes na política apostam em plataformas digitais e em discursos ideológicos para alcançar o eleitorado e impulsionar suas carreiras públicas. No Ceará, figuras como André Fernandes construíram bases digitais conservadoras, enquanto nomes da esquerda como Léo Suricate e Gabriel Biologia ganharam destaque na internet em Fortaleza. Em Pernambuco, o historiador Jones Manoel utiliza sua audiência construída fora dos moldes tradicionais, somando cerca de 2 milhões de seguidores apenas no Instagram, para dar capilaridade à sua candidatura percorrendo o interior do estado.

Disputas locais e o pragmatismo do eleitor A força das entregas de obras viabilizadas por parlamentares molda o cenário em diversos municípios, onde o alinhamento ideológico costuma ficar em segundo plano. Em Salgueiro, no interior pernambucano, moradores demonstram um perfil pragmático na hora de votar, priorizando candidatos indicados por gestores locais que viabilizaram melhorias urbanas ou doações de equipamentos agrícolas para associações da região.

Apoios cruzados e o cálculo para o futuro político Essa lógica de entrega de benefícios alimenta uma rede de apoios cruzados em vários estados nordestinos, onde prefeitos frequentemente dividem palanques entre grupos adversários para garantir diferentes fontes de verbas. O cenário aponta para uma alta taxa de reeleição de parlamentares e o fortalecimento de siglas do centrão, impulsionadas pelo controle sobre o financiamento de campanha e a proximidade com os executivos municipais.

“A expectativa é de crescimento dos partidos que têm essa perspectiva de uso de emendas de maneira massiva. E quanto mais deputados federais, mais acesso ao financiamento de campanha, o que já entra no cálculo dos políticos para as eleições para prefeito, daqui a dois anos”, avalia.

Fonte: Política – Folha

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