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Caderno Mercado

Meta lança óculos sem câmera após críticas sobre privacidade

Meta lança óculos sem câmera após críticas sobre privacidade

O lançamento dos óculos inteligentes da Meta em parceria com a marca Ray-Ban desencadeou debates globais sobre vigilância e segurança pessoal. Após uma onda de denúncias envolvendo gravações sem consentimento e assédio a mulheres, a companhia anunciou uma alternativa: o Ray-Ban Meta Audio, um modelo sem câmera voltado exclusivamente para recursos sonoros.

Polêmicas e proibições em massa

Apesar de campanhas publicitárias com celebridades, os aparelhos equipados com sensores visuais ganharam apelidos pejorativos, sendo chamados de óculos “pervertidos” ou “sinistros”. Casos de meninas e mulheres filmadas secretamente para divulgação na internet motivaram restrições severas. No Reino Unido, pubs da rede JD Wetherspoon, grandes teatros, convenções da Comic-Con, colégios e até a base naval de Faslane, onde operam submarinos nucleares, baniram o uso dos óculos.

Para amenizar a crise de reputação, o novo dispositivo preserva funções como execução de áudio, reprodução de podcasts e chamadas telefônicas via Bluetooth conectadas ao aplicativo de inteligência artificial, mas retira totalmente os recursos fotográficos. Além de diminuir os temores de espionagem, o acessório traz uma estrutura mais leve, bateria de maior autonomia e preço mais acessível.

A empresa nega ter agido sob pressão popular e sustenta que a criação levou dois anos. Questionado se a edição sem câmera poderia ultrapassar as vendas da versão tradicional, o chefe de produtos da Meta Glasses, Ankit Brahmbhatt, ponderou: “Temos, eu acho, algo para todos”.

Conflito entre praticidade e privacidade

Embora ativistas apontem riscos graves, usuários relatam benefícios cotidianos. A possibilidade de escutar instruções de navegação por mapas, atender ligações ou desfrutar de música mantendo os ouvidos livres para o tráfego urbano oferece praticidade e sensação de segurança contra furtos de celulares nas ruas. Contudo, a contrapartida reside no envio contínuo de dados de localização à Meta.

Além de profissionais do esporte e criadores de conteúdo, os óculos inteligentes provaram ser úteis para pessoas com deficiência visual ao lerem textos e descreverem ambientes. A própria Meta chegou a repassar 15 mil unidades a uma instituição beneficente na Irlanda para auxiliar esse público.

Por outro lado, tentativas de burlar o LED indicador que avisa quando a gravação está ativa provocaram a indignação de especialistas e familiares. A empresária de tecnologia Liz Hunter organizou um abaixo-assinado exigindo regras mais rigorosas: “Eles nunca, nunca deveriam ter deixado o laboratório com a Meta”, declarou Hunter. Para ela, “É uma verdadeira paródia de confiança pública, de igualdade das mulheres, e reverteu nosso direito à privacidade bem diante dos nossos olhos.” A ativista reforça que o acesso deveria ser limitado a pessoas com deficiência visual: “Não precisamos deles, nem os queremos”.

Estratégia de mercado e o futuro do setor

Mesmo com o receio popular e o surgimento de ferramentas como o aplicativo ZuckOff, desenhado para rastrear os óculos nas imediações via Bluetooth, concorrentes aceleram investimentos. Empresas como Google e Samsung estruturam parcerias para apresentar suas próprias versões, enquanto a Snap comercializa o Specs por US$ 2.195 (cerca de R$ 11,4 mil).

A retirada da câmera, portanto, não simboliza um abandono dessa tecnologia por parte da Meta. Segundo o analista Ben Wood, da consultoria CCS Insight, os recursos visuais são cruciais para abastecer sistemas de inteligência artificial com informações sobre o ambiente. “Por isso, ter suas partes visuais com as câmeras é um pilar fundamental para obter a melhor experiência”, pontua. Para ele, os modelos com lentes de gravação “não irão desaparecer” e o cenário repete o início dos telefones celulares com foto: “Precisaremos encontrar uma norma social, um enquadramento para o uso desses produtos.”

A analista Kate Winick, da Forrester, observa que a presença simultânea de óculos com e sem câmera diminui o atrito social. Na visão de Winick, “você não pode esbravejar automaticamente com todos os usuários de óculos da Meta, pois talvez você não saiba se eles têm ou não câmera.”

Enquanto isso, rivais tentam outros caminhos. A taiwanesa HTC lançou o Vive Eagle com comandos de voz que interrompem a captura caso alguém por perto diga “pare de filmar” ou “pare de gravar”. O executivo da HTC Vive Thomas Dexmier ressaltou: “Reconhecemos que existem dificuldades que podem se tornar problemas reais, especialmente para as mulheres”, indicando que a indústria ainda busca formas de equilibrar inovação técnica e respeito aos limites individuais.

Fonte: Folha - Tecnologia