Pular para o conteúdo principal

Caderno Mercado

Firmus cancela IPO bilionário e alerta mercado sobre bolha de IA

Firmus cancela IPO bilionário e alerta mercado sobre bolha de IA

A operadora de data centers Firmus, apoiada pela gigante tecnológica Nvidia, cancelou oficialmente seus planos para realizar uma oferta pública inicial (IPO) que pretendia movimentar US$ 5 bilhões — o equivalente a cerca de R$ 25 bilhões. A transação seria a maior estreia na bolsa australiana desde 1997, mas o recuo evidencia o aumento da cautela dos acionistas em relação às estimativas elevadas de valor de mercado para negócios voltados à inteligência artificial.

Causas da desistência e rejeição do mercado

Com uma meta inicial de alcançar uma avaliação corporativa de US$ 30 bilhões, a companhia comunicou na última sexta-feira (9) a retirada definitiva de seu pedido de listagem na praça financeira de Sydney. A decisão foi justificada pela empresa por meio da “volatilidade recente do mercado e as condições atuais”.

“O conselho concluiu que os termos sob os quais a oferta poderia prosseguir não refletiriam adequadamente a força dos negócios da empresa e suas perspectivas de crescimento no longo prazo”, afirmou a Firmus.

A organização enfrentou barreiras expressivas para atrair compradores dispostos a pagar o valor pretendido pelos papéis. Especialistas apontam que o episódio reflete dúvidas sobre a viabilidade financeira de projetos ambiciosos no segmento de tecnologia. “A Firmus é provavelmente um dos IPOs mais controvertidos que já vi”, disse Jun Bei Liu, fundadora da gestora de ativos Ten Cap. “Eles podem conseguir gerar lucros a custos menores em dois anos, se construírem o que prometem, mas isso é especulativo.”

Transição de negócio e expansão futura

Criada originalmente em 2019 como uma mineradora de criptomoedas no território australiano, a empresa redirecionou suas operações para a área de infraestrutura digital. Atualmente, o plano estratégico envolve a construção de estruturas voltadas ao processamento avançado utilizando chips fornecidos pela Nvidia, que inclusive participou de uma rodada de investimentos anterior avaliando o negócio em mais de US$ 10,5 bilhões.

Apesar de contar com contratos assinados que superam 900 megawatts de capacidade, a estrutura operacional atual da companhia resume-se a apenas 46 megawatts divididos entre duas unidades na Singapura e na Austrália. Outros cinco complexos seguem em fase de obras, com prazos de conclusão estipulados para os próximos anos. Diante do cenário adverso na bolsa, fontes próximas à operação indicam que a marca buscará captação de recursos por vias privadas.

Desafios macroeconômicos e o futuro do setor

O ceticismo institucional em torno do modelo de negócios da corporação foi externado publicamente antes mesmo do cancelamento oficial. “Acreditamos que a Firmus tem, de fato, uma história convincente; o que não é convincente é sua avaliação”, declarou John Pearce, diretor de investimentos do fundo de pensão australiano UniSuper. “Muita coisa precisa dar certo para justificar essa avaliação. Além disso, estamos bastante preocupados com a possibilidade de a Firmus precisar voltar repetidamente ao mercado para captar muito mais recursos por meio de dívidas e emissão de ações para financiar seus planos de expansão”, pontuou o executivo.

O cenário macroeconômico global também impõe barreiras adicionais. A alta generalizada nas taxas de juros eleva o custo de empréstimos, tornando os títulos públicos tradicionais opções mais seguras e atraentes para quem aplica capital, o que pressiona as companhias de inovação a demonstrarem resultados concretos. “Os investidores exigirão mais evidências sobre as perspectivas de crescimento dessas empresas”, avaliou Jason Lui, chefe de estratégia de ações e derivativos para a região Ásia-Pacífico do BNP Paribas. “O custo de oportunidade é maior.”

Fonte: Folha - Tecnologia