Aposta em inteligência artificial eleva riscos no capital de risco
A indústria global de capital de risco, avaliada em US$ 3,5 trilhões, lida atualmente com uma disfunção estrutural profunda: as avaliações das empresas sobem de forma acelerada enquanto a quantidade de transações cai. Dados da CB Insights apontam que aportes superiores a US$ 100 milhões concentraram 75% da captação mundial no terceiro trimestre de 2026, impulsionados sobretudo pelo apetite voraz das companhias focadas em inteligência artificial.
O impacto da lei de potência no mercado
Essa dinâmica altera a lógica da chamada power law, princípio segundo o qual um portfólio típico acumula cerca de nove falhas para cada grande acerto. Com as empresas de tecnologia exigindo cheques cada vez mais robustos em rodadas sucessivas, os gestores precisam alocar fatias monumentais de capital em apostas unitárias ou redirecionar o foco para outras áreas.
Apesar dos riscos, o capital continua fluindo com força para quem consegue atrair somas colossais. A Kleiner Perkins obteve US$ 3,5 bilhões neste ano por meio de dois fundos voltados ao setor. No mesmo período, a Andreessen Horowitz concluiu captações multibilionárias, incluindo o fundo Machine Age, de US$ 1,1 bilhão, direcionado ao fortalecimento da infraestrutura física da tecnologia.
Novos concorrentes e o cerco aos menores
As gestoras tradicionais também enfrentam a concorrência de braços de investimento corporativo externos ao mercado financeiro convencional. A fabricante de chips Nvidia exemplifica essa tendência ao adquirir participações em negócios como a plataforma francesa de saúde Doctolib e a desenvolvedora de centros de dados Cloverleaf, disponibilizando não apenas recursos financeiros, mas também prioridade no fornecimento de semicondutores.
Em contrapartida, os fundos de menor porte sofrem com a escassez de recursos e margens espremidas. Para sobreviver, investidores solo e estruturas enxutas recorrem a cortes de despesas e à própria inteligência artificial para otimizar serviços jurídicos, treinamentos e a prospecção de negócios. Outra alternativa para quem não dispõe de somas bilionárias consiste em mirar inovações especulativas, a exemplo dos neo-labs de IA, compostos por equipes qualificadas e ideias em estágio inicial.
O temor histórico de perder grandes oportunidades alimenta a pressão competitiva, facilitando a vida dos fundadores na obtenção de recursos vultosos, mas comprometendo a diversificação das carteiras. Com as companhias mantendo o status de empresas privadas por períodos mais longos, o ecossistema assume um perfil consideravelmente mais arriscado do que nos moldes tradicionais.
Fonte: Folha - Tecnologia