O Brasil reúne condições geográficas e econômicas raras no cenário global: vive longe de conflitos bélicos diretos, mantém pontes diplomáticas sólidas com as principais potências e detém uma infraestrutura produtiva altamente resiliente a choques comerciais externos. Contudo, às vésperas de um novo pleito presidencial, o país corre o risco de ver sua posição estratégica estagnar diante de um intenso impasse político e de um quadro fiscal alarmante.
Riqueza estratégica e abundância de recursos naturais
Diferente de economias que sofrem com gargalos energéticos, o território nacional conta com uma matriz elétrica composta por 89% de fontes renováveis, impulsionada pelas usinas hidrelétricas e pela rápida expansão solar e eólica. Esse excedente limpo viabiliza a atração de centros de processamento de dados e projetos voltados à descarbonização industrial, como a produção de aço verde e combustíveis sustentáveis.
No setor de hidrocarbonetos, a descoberta inicial de petróleo na Margem Equatorial pela Petrobras fortalece a capacidade já expressiva dos poços do pré-sal. No campo agrícola, o país consolida a liderança global na exportação de carne bovina, soja, café, algodão, suco de laranja e cana-de-açúcar, caminhando para superar os Estados Unidos em embarques agrícolas gerais.
O subsolo também abriga a segunda maior reserva global de terras raras, elementos indispensáveis para a indústria de alta tecnologia. Emissários internacionais buscam parcerias para mitigar a dependência do refino chinês. Segundo um diplomata em Brasília, representantes estrangeiros estão “nos assediando por acordos de terras raras, num sentido positivo”. Esse conjunto de fatores sustentou a atração de US$ 77 bilhões em investimento estrangeiro direto recentemente. Para Christopher Garman, da consultoria Eurasia Group, “O Brasil tem ativos concretos que vão ganhar valor num mundo de maior conflito geopolítico”.
Déficit crônico e rigidez orçamentária
Apesar do interesse externo, a economia doméstica opera sob o freio de juros reais em torno de 9%. Esse patamar restritivo elevou o total de companhias inadimplentes para cerca de 9 milhões e fez com que o serviço de dívidas passasse a consumir 30% da renda familiar média, o teto da série histórica iniciada em 2004.
A raiz da volatilidade reside no endividamento público, cuja dívida bruta se aproxima de 100% do PIB, com déficit acima de 9%. O perfil de compromissos atrelados a taxas flutuantes encarece continuamente a rolagem do passivo soberano. Durante o atual mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sustentou o ritmo da atividade com transferências sociais e crédito direcionado, incluindo reajustes no Bolsa Família. Em contrapartida, analistas projetam avanço modesto de 1% ao ano para 2027 e 2028, enquanto o próprio mandatário declarou: “precisamos acabar com essa bobagem de fazer superávit e manter disciplina fiscal.”
O estrangulamento das contas públicas
As despesas obrigatórias abocanham cerca de 90% do orçamento da União. Pelas regras de indexação previdenciária e trabalhista, cada real adicionado ao salário mínimo acarreta uma despesa extra de R$ 400 milhões aos cofres públicos. Projeções indicam que as verbas discricionárias — voltadas a infraestrutura e investimentos — podem se esgotar até 2029.
A rigidez é agravada por dois gargalos centrais:
• Privilégios no funcionalismo: Mais de 67 mil servidores ultrapassam o teto constitucional de R$ 46.366,19 mediante verbas indenizatórias. De acordo com Guilherme Coelho, da organização Republica.org, “O Brasil foi feito refém pelos servidores públicos do topo da pirâmide”.
• Desonerações fiscais: Renúncias e brechas tributárias somam cerca de 7% do PIB, frente a 2% registrados no início dos anos 2000, gerando distorções de mercado. Sobre essa dinâmica, um economista avaliou que “Aqui as empresas não competem por fatia de mercado, mas por fatia do governo”.
Disputa presidencial e propostas opostas
Nas pesquisas de intenção de voto, Lula e o senador Flávio Bolsonaro aparecem empatados. Ambos enfrentam índices elevados de rejeição e desconfiança popular quanto à condução macroeconômica e ao equilíbrio institucional.
A campanha governista defende investimentos estatais em inteligência artificial e soberania sobre recursos estratégicos. Ministro integrante da campanha de Lula, Guilherme Boulos afirmou: “Queremos construir uma cadeia produtiva com valor agregado, não simplesmente exportar matéria-prima de forma colonial, deixando para trás só buracos no chão”. No entanto, o plano enfrenta dúvidas sobre sustentabilidade orçamentária.
Do lado da oposição, Flávio Bolsonaro aposta na retórica conservadora, em acenos a medidas drásticas de segurança pública e no alinhamento irrestrito aos interesses do governo Donald Trump. Embora assessores econômicos prometam responsabilidade e inspirem relativa simpatia na Faria Lima, o candidato já sinalizou propostas onerosas sem fonte definida de financiamento, como a distribuição de planos de telefonia e dados para dezenas de milhões de cidadãs.
Crise de confiança entre os Poderes
O processo eleitoral ocorre sob a sombra de escândalos envolvendo instituições da República. Investigações da Polícia Federal sobre a quebra fraudulenta do Banco Master expuseram ligações entre o banqueiro Daniel Vorcaro, parlamentares e membros do Supremo Tribunal Federal, revelando contratos com escritórios de familiares de ministros e episódios de tráfico de influência.
A relação entre o Congresso e a Suprema Corte encontra-se tensionada pela prerrogativa mútua de fiscalização e abertura de processos de impedimento. Enquanto o próximo ocupante do Palácio do Planalto terá o papel de indicar quatro novos integrantes à corte constitucional, as alianças partidárias no Legislativo continuam exigindo concessões orçamentárias expressivas para a governabilidade.
A despeito da turbulência política crônica, o país preserva freios democráticos relevantes por meio de órgãos autônomos de controle e do escrutínio público. Como pontua o acadêmico Celso Rocha de Barros, “Pelo menos no Brasil as
Fonte: Política - Folha




