'Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro geram pouco entusiasmo', diz brasilianista

As próximas eleições presidenciais no Brasil revelam um cenário de cansaço generalizado da sociedade em relação a Luiz Inácio Lula da Silva e ao Partido dos Trabalhadores, ao mesmo tempo em que a principal figura da oposição, Flávio Bolsonaro (PL), não consegue despertar grandes paixões no eleitorado.

Para a cientista política Wendy Hunter, professora da Universidade do Texas e especialista na política nacional, a disputa atual é marcada por “os dois lados apagados”. A autora de “The Transformation of the Workers’ Party in Brazil, 1989-2009” destaca que o antipetismo se consolidou a partir de um “conjunto muito heterogêneo” de perfis, impulsionado por um forte “discurso sobre trabalho e mérito”.

Desafios para o Partido dos Trabalhadores e o fator custo de vida

As projeções indicam que a corrida ao Palácio do Planalto será consideravelmente mais complexa para o PT do que a disputa de quatro anos atrás. Embora o desempenho macroeconômico do país não tenha sido desastroso recentemente, a população mantém forte preocupação com o custo de vida.

Outro elemento de transformação social é a mudança no perfil do trabalhador. Enquanto no passado havia forte adesão ao regime CLT e à participação em sindicatos, hoje uma parcela expressiva da população demonstra o desejo de atuar como empreendedor. Além disso, o desgaste natural de quem ocupa o poder e a percepção de que a legenda carece de novidades programáticas contribuem para o cenário adverso.

A força do antipetismo e a ideologia do mérito

Questionada sobre a rejeição ao partido governista, medida recentemente por pesquisas como a do Datafolha, que aponta que 45% dos eleitores rejeitam Lula veementemente, a pesquisadora enfatiza que o fenômeno não pode ser reduzido a estereótipos regionais ou de classe. O antipetismo abrange minorias e se alimenta de uma nova mentalidade focada no mérito individual, onde frases como “Fulano não merece tal benefício” tornaram-se comuns no cotidiano dos brasileiros.

No que tange às políticas sociais, programas como o Bolsa Família sofreram um processo de normalização. Assim como ocorre com a Previdência Social em democracias consolidadas, o benefício faz parte do cotidiano da população há duas décadas, deixando de funcionar como um gerador automático de gratidão eleitoral diária.

A questão geracional e a virada no perfil dos eleitores

Um aspecto frequentemente ignorado por analistas e jornalistas é a dinâmica geracional nas urnas. Historicamente associados à esquerda, os jovens têm dado lugar a públicos mais conservadores globalmente, invertendo a lógica tradicional.

Nesse contexto, a campanha governista deveria direcionar maior atenção ao segmento de eleitores com mais de 70 anos. Por não estarem sujeitos ao voto obrigatório, muitos se ausitaram em 2022, mas essa faixa etária concentra uma proporção maior de simpatizantes de Lula — superando os apoiadores de Flávio Bolsonaro por uma margem de 10 a 15 pontos —, justamente por serem menos suscetíveis ao discurso generalizado do empreendedorismo absoluto.

Democracia, instituições e o papel da oposição

Apesar da retórica inflamada da oposição, a cientista política descarta riscos imediatos ao regime democrático em caso de vitória da direita. Ela avalia que propostas de cunho mais autoritário encontram barreiras institucionais intransponíveis no Brasil. “perderiam espaço com uma solução autocrática”, afirma sobre a postura previsível dos parlamentares no Congresso Nacional, além do papel de autonomia exercido pelo federalismo e pelas forças de segurança estaduais. Contudo, ela alerta que pautas voltadas para a preservação da Amazônia e políticas sociais estariam vulneráveis sob uma nova gestão bolsonarista.

Por fim, Hunter descarta qualquer possibilidade de interferência externa significativa do governo dos Estados Unidos nas urnas brasileiras, elogiando a robustez das instituições nacionais e a segurança proporcionada pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Fonte: Política – Folha

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