Caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vença a disputa presidencial brasileira por uma margem estreita, existem fortes probabilidades de que o mandatário americano, Donald Trump, recuse-se a aceitar o resultado. O alerta é de Nick Zimmerman, ex-diretor para Brasil e Cone Sul do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca durante a gestão de Barack Obama e atual pesquisador sênior do Inter-American Dialogue.
De acordo com o analista, o grau de interferência exercido por Washington no pleito do Brasil não possui precedentes históricos na política externa dos Estados Unidos. A atuação do governo norte-americano envolveria pressões contínuas e possíveis demandas por contrapartidas econômicas ou imposições de penalidades caso a esquerda permaneça no poder.
Interferência sem precedentes históricos
Questionado sobre a abertura nas tentativas de influência do atual governo dos EUA na política brasileira, o especialista foi categórico ao apontar ações passadas na Argentina e em Honduras, além de medidas direcionadas ao cenário nacional.
“Enxergo, sim, não há dúvida de que há uma tentativa de interferir na eleição brasileira. O governo Trump já tem um histórico de interferir em eleições. Exemplos recentes incluem Argentina, com a promessa de US$ 20 bilhões na véspera das eleições legislativas; Honduras, quando Trump ameaçou cortar toda a ajuda externa caso seu candidato presidencial preferido não vencesse. Enxergo o tarifaço do ano passado, sanções sobre o ministro Alexandre de Moraes e a designação do CV e PCC como organizações terroristas como esforços para ajudar politicamente a família Bolsonaro”, afirmou Zimmerman.
Impactos bilaterais e cenários futuros
Nas relações entre as duas nações, as prioridades norte-americanas envolvem a derrota do atual governo brasileiro para assegurar um alinhamento continental à direita, garantir prioridade aos minerais críticos e proteger as big techs de regulações consideradas restritivas.
Caso ocorra um triunfo da oposição liderada por Flávio Bolsonaro, a dinâmica mudaria para negociações comerciais e acordos de reciprocidade, embora surjam divergências em relação ao avanço tecnológico chinês na infraestrutura nacional.
Sobre a classificação de facções criminosas como grupos narcoterroristas, o pesquisador descarta invasões militares diretas, mas projeta graves reflexos econômicos. “O que acho provável é que essas designações do CV e PCC gerem problemas de compliance do setor financeiro brasileiro de uma maneira que poderia impactar a economia do país. Se o PCC lavar dinheiro usando um banco no Brasil e as autoridades americanas decidirem que a instituição não fez seu dever de casa de se proteger contra essa possibilidade, poderá sofrer sanções”, explicou.
Por fim, o ex-assessor avalia que o momento diplomático entre os países é o mais delicado desde o golpe de 1964, gerando um ambiente de polarização duradoura entre democratas e republicanos que dificulta a sustentabilidade de políticas de Estado a longo prazo.
Fonte: Política - Folha



