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Caderno Mercado

Maioria dos países mantém maioridade penal aos 18 anos, aponta estudo

Maioria dos países mantém maioridade penal aos 18 anos, aponta estudo

Apenas oito de um grupo de 76 nações na Europa, América Latina e G20 fixam a maioridade penal abaixo dos 18 anos, conforme análises divulgadas pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pela Child Rights International Network (CRIN). O restante das jurisdições avaliadas adota a idade adulta legal aos 18 anos para o julgamento criminal de indivíduos.

Panorama global da maioridade penal

Dentre os territórios pesquisados, 68 estabelecem a marca de 18 anos. As exceções que adotam limites inferiores compreendem Albânia, Andorra, Armênia, Azerbaijão, Haiti, Lituânia, Polônia e Portugal. Nenhum dos 19 membros do G20 possui uma maioridade penal inferior a 18 anos. Na América Latina, o Haiti figura como o único país da amostra com patamar aos 16 anos.

No cenário brasileiro, o debate legislativo sobre a pauta envolve propostas para reduzir a idade de julgamento como adulto para 16 anos, especialmente em situações de crimes hediondos como homicídios. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já manifestou apoio a essa redução parcial, enquanto o Senado optou por aguardar a movimentação da Câmara dos Deputados sobre o tema.

Responsabilização juvenil no Brasil e no mundo

Especialistas destacam a diferença conceitual entre maioridade penal, que define o julgamento de adultos, e a idade de responsabilização penal, aplicável a sistemas juvenis específicos. No território brasileiro, a responsabilização começa aos 12 anos por meio de medidas socioeducativas, patamar compartilhado por nações como África do Sul, Canadá e México.

Para Joaquin Gonzalez-Aleman, representante do Unicef no Brasil, a redução da maioridade penal pode trazer impactos negativos para o Brasil.

“Hoje, adolescentes que cometem atos infracionais são responsabilizados por meio do Sistema Socioeducativo, em unidades separadas de adultos, com medidas que combinam responsabilização com educação e reintegração social. Levá-los para o sistema prisional adulto pode expô-los a redes criminosas mais estruturadas e aumentar o risco de recrutamento pelo crime organizado”, diz.

O especialista acrescenta que dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que “a reentrada no sistema prisional adulto é quase o dobro da observada entre adolescentes no Sistema Socioeducativo, o que reforça a importância de investir em respostas capazes de reduzir a reincidência”.

“Aqui passamos a falar não apenas de impactos para os adolescentes, mas para a sociedade como um todo: se os adolescentes passarem para o sistema adulto, com a redução da maioridade penal, é provável que as taxas de reincidências deles também aumentem e que a sociedade sofra com mais crimes”, diz.

Gonzalez-Aleman também pontua que “a regra atual, de maioridade penal aos 18 anos, está alinhada ao padrão predominante internacionalmente: nenhum dos 19 países do G20 analisados pelo Unicef estabelece, como regra geral, uma idade inferior a 18 anos. Uma redução afastaria o Brasil desse padrão e das evidências internacionais sobre uma justiça juvenil adequada à idade e ao desenvolvimento dos adolescentes.”

Tendências internacionais e reflexos na segurança

Movimentos recentes em outras nações apontam direções distintas. Enquanto a Argentina reduziu a idade de responsabilização penal para 14 anos, alguns estados norte-americanos optaram por reintegrar jovens de 16 e 17 anos ao sistema juvenil após constatarem que o modelo adulto falhou. “Viram que [as medidas] não produziram os resultados esperados”, diz o representante do Unicef.

“Os países mais ricos do mundo, onde vivem cerca de 60% da população mundial, concordam que é possível responsabilizar um adolescente sem tratá-lo como adulto”, afirmou Joaquin Gonzalez-Aleman.

Por fim, o Unicef ressalta que o debate sobre a idade mínima de 14 anos recomendada pelo Comitê dos Direitos da Criança deve ser dissociado da discussão sobre o encarceramento adulto. “Essa diretriz, atualizada em 2019, justifica-se pela etapa diferenciada de desenvolvimento físico e psicológico de crianças e adolescentes, e é observada por quase 40% dos países do G20 e América Latina. É um debate legítimo para o país, mas é importante não confundi-lo com a maioridade penal: uma coisa é definir a partir de quando um adolescente pode ser responsabilizado; outra é definir quando deve passar a ser tratado como adulto pelo sistema penal”, explica o especialista.

Fonte: G1 - Política