O amanhecer em Águas Lindas de Goiás carregava histórias de superação antes mesmo de os primeiros portões se abrirem neste domingo de votação. Na Escola Municipal Domingos Simão de Oliveira, o espaço que no passado funcionava como curral de vacas recebeu moradores que transformaram o exercício do voto em um reencontro com a própria trajetória.
Madrugada na fila e o sonho de dias melhores
O primeiro a se posicionar na fila foi o piauiense Pedro Pereira, de 56 anos, que chegou por volta das 5h50 da manhã. Porteiro em Brasília, cidade distante cerca de 50 quilômetros da sua residência, ele enfrenta duas horas de deslocamento em transporte público e expressou o cansaço da rotina pesada. “Espero que um dia acabe essa escala 6×1 e eu possa ter uma vida melhor”, disse o homem que interrompeu os estudos no 4º ano, quando criança.
Nascido em Campo Maior (PI), Pedro precisou trocar os cadernos pela roça ainda jovem e afirma se recordar de quase nada do aprendizado formal. Para tentar a vida na Região Centro-Oeste, vendeu a única cabra que possuía e viajou para a capital federal, onde também atuou na construção civil. Apesar disso, incentivou os seis filhos a se dedicarem às salas de aula. “Pisar numa escola mexe demais comigo”, revelou, completando: “Quem sabe um dia eu volto a uma escola como essa”.
Logo atrás dele aguardava o agricultor Divino Evangelista dos Santos, de 53 anos, que também deixou as salas de aula na 4ª série. Pai de 11 filhos, ele foi votar cedo para logo assumir as tarefas do campo e demonstrou satisfação pelo fato de que “nenhum dos meninos” abandonou os estudos. A fila também reuniu o pedreiro Dorival Batista, de 62 anos, vindo do Tocantins e radicado na cidade desde 2002, cujo desejo é alcançar a tranquilidade da aposentadoria.
Da terra batida à referência comunitária
A instituição onde esses cidadãos votaram carrega raízes profundas de mobilização popular. A psicopedagoga Maria do Socorro Pereira, de 69 anos, foi a responsável por dar início às atividades pedagógicas em 1992, reunindo 60 dependentes de operários agrícolas. Hoje, o local atende 1.350 estudantes.
“Ocupamos o lugar que era o curral das vacas”, relatou a educadora sobre o início da unidade. “O começo foi no improviso. Tinha contêineres. Eu cavei até cisterna para que aqui virasse uma escola”.
Inicialmente batizado em homenagem a Ayrton Senna logo após a morte do piloto em 1994, o projeto educacional acompanhou a emancipação política de Águas Lindas em 1995. Posteriormente, a denominação Ayrton Senna foi destinada ao prédio vizinho de ensino médio, enquanto a estrutura original permaneceu com a educação infantil e fundamental. “Eu tenho muito amor por este lugar”, declarou Maria do Socorro.
Ex-alunos encontram esperança e futuro nas urnas
Para quem passou a juventude naquelas salas, voltar como eleitor traz um significado especial. A camareira hospitalar Géssica Matos, de 33 anos, aguardava sua vez segurando o filho Oliver Darwin, de nove meses, ao lado do marido Jeremias Azevedo, marceneiro de 30 anos. Atuando em plantões no Hospital de Base, ela madruga rotineiramente para encarar o trajeto interurbano.
“Foi aqui que a gente cresceu. Nós votamos para ele ter também esperança de futuro. Que ele viva em um país democrático, com ensino de excelência”, diz a mãe, ao lado do marido, o marceneiro Jeremias Azevedo, de 30 anos. Emocionada, ela acrescentou: “Voltar a essa escola para votar nos deixa muito emocionados porque aqui cresceram os nossos sonhos. Votar alimenta nossos sonhos”.
Outro fruto do colégio é o advogado Adenilson dos Santos Filho, de 36 anos. Ele ingressou no local aos 7 anos e concluiu o ensino superior por meio do Programa Universidade para Todos (Prouni). “E pensar que era um curral. Lembro das professoras que insistiam que eu estudasse. Elas estavam certas. Mas, no começo, eu vinha mesmo por causa da merenda”, sorri. Para ele, a memória é permanente: “A faculdade foi muito importante, mas essa escola eu nunca esquecerei. É referência para todos nós”.
A mesma ligação afetiva moveu o balconista Adriano Silva, de 20 anos, agora estudante universitário de gestão pública com foco em concursos, e Lídia da Conceição, de 31 anos. Ela foi aluna da instituição durante toda a fase escolar e atualmente atua no prédio como monitora de estudantes neurodivergentes enquanto cursa pedagogia. “Venho trabalhar com muita felicidade”, afirmou, antes de concluir: “Quero ser professora também aqui nesta escola”.
A diretora da unidade, Zélia Vaz, de 58 anos, destacou que o espaço sempre acolheu famílias com diferentes vulnerabilidades ao longo de três décadas. “Nosso papel é orientar. Conheço todos que passam aqui. Eles vêm votar, mas estudam ou estudaram com a gente. Para nós, é muito gratificante vê-los ou revê-los como adultos e cidadãos no direito ao voto”, ressaltou a gestora, sintetizando a relação indissociável entre educação e cidadania.
Fonte: Agencia Brasil




