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Caderno Mercado

Por que montar uma carteira de dividendos antes da aposentadoria pode ser um erro

Por que montar uma carteira de dividendos antes da aposentadoria pode ser um erro

Iniciar a montagem de uma carteira de aposentadoria com foco em ativos geradores de renda — como ações de dividendos, fundos imobiliários e títulos com cupons — anos antes de parar de trabalhar pode parecer uma atitude prudente, mas frequentemente representa o oposto. Quem ainda recebe um salário mensal e tem o hábito de reinvestir os proventos não necessita de um portfólio focado em distribuição de caixa, mas sim de uma estratégia voltada para a expansão do patrimônio.

O equívoco da busca precoce por renda

Durante a fase de acumulação, a métrica primordial deve ser o retorno total, que engloba tanto os ganhos de capital quanto os proventos, descontando impostos, taxas e o risco assumido. O formato pelo qual o ganho chega até o investidor é secundário enquanto esses recursos não forem destinados ao pagamento de despesas cotidianas.

O foco antecipado em fluxo de caixa faz com que muitos investidores priorizem empresas maduras, fundos ou títulos apenas pela satisfação de ver o dinheiro cair na conta, muitas vezes abriu mão de alternativas com maior potencial de valorização. Além disso, essa prática pode antecipar obrigações tributárias e gerar custos de transação desnecessários com a reaplicação de valores.

Mudanças estruturais no longo prazo

Outro obstáculo de planejar hoje uma carteira de renda que só será utilizada daqui a dez ou vinte anos é a volatilidade dos mercados. Setores envelhecem, empresas alteram suas estratégias, taxas de juros flutuam e novos produtos financeiros surgem, tornando improvável que os ativos ideais para 2026 sejam os mesmos necessários em 2046.

Mesmo após a inatividade laboral, o investidor não deve alocar todo o capital em uma única estratégia de renda. Como a expectativa de vida pode estender os recursos até os 90 ou 100 anos, a gestão exige múltiplos horizontes temporais dentro do mesmo patrimônio.

Estratégia de múltiplos horizontes

A abordagem ideal consiste em manter simultaneamente uma parcela da carteira voltada para a liquidez imediata e outra focada no crescimento de longo prazo. Conforme o tempo avança, as fatias destinadas ao futuro são gradualmente convertidas em geradoras de renda.

Conforme aponta Michael Viriato, planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor, o investidor acaba correndo riscos ao tentar antecipar cenários distantes: “O investidor pode acabar construindo aos 50 anos a carteira que imagina precisar aos 65, sacrificando parte de um período ainda longo de acumulação e apostando que os ativos escolhidos hoje continuarão sendo os mais adequados no futuro.”

Portanto, a regra principal para o planejamento financeiro de longo prazo é clara: na etapa de acumulação, priorize a expansão e o retorno total. Já na fase de inatividade, divida os recursos entre a renda para o presente e a continuidade do crescimento para as próximas décadas.

Fonte: Folha - Mercado