Pular para o conteúdo principal

Caderno Mercado

Cenário econômico atual afasta comparação com governo Dilma mas alerta para riscos

Cenário econômico atual afasta comparação com governo Dilma mas alerta para riscos

Indicadores econômicos atuais mostram um cenário bastante diferente daquele registrado no final de 2014, quando produção, vendas e postos de trabalho despencavam antes do segundo mandato de Dilma Rousseff. Especialistas apontam que equiparar um eventual quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva àquela crise é um equívoco, pois o panorama de atividade real não apresenta a mesma derrocada. Contudo, analistas ponderam que ignorar a possibilidade de um colapso financeiro também seria imprudente, visto que os desafios fiscais mudaram de figura e exigem medidas preventivas.

O peso do endividamento e os juros elevados

Um dos principais diferenciais em relação ao passado é o patamar da dívida. Atualmente, tanto o endividamento do governo quanto o das famílias superam os níveis observados no encerramento do primeiro mandato de Dilma. Reduzir essas obrigações financeiras torna-se uma tarefa árdua em um contexto onde salários e receitas apresentam crescimentos modestos. Além disso, o orçamento público e a eficiência dos gastos encontram-se travados por amarras estruturais severas.

Após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a economia sentiu um aperto severo nas condições financeiras. As taxas de juros dispararam em vários prazos no mercado financeiro, encarecendo os empréstimos e financiamentos utilizados pelo governo para cobrir seus déficits e rolar a dívida pública, o que acaba ditando o custo do crédito para toda a economia. Paralelamente, o real sofreu desvalorização frente a outras moedas.

Impactos na atividade real e o fator do endividamento público

A permanência desse cenário adverso tende a respingar na economia real, afetando diretamente a produção, o comércio, os investimentos e a geração de empregos. A alta dos juros está atrelada à necessidade crescente de captação de recursos pelo governo. Como a gestão federal tem recorrido a financiamentos com prazos cada vez mais curtos, o risco aumenta e alimenta a fuga de capital, fazendo com que agentes econômicos optem por dolarizar ativos diante da desconfiança.

Para construir um plano fiscal sólido, especialistas defendem a adoção de regras simples, liderança qualificada no Executivo e no Congresso, e o cumprimento rigoroso de metas. A credibilidade é o bilhete de entrada para que o mercado incorpore as diretrizes econômicas. A criação de reformas institucionais, como um conselho fiscal independente e um ministério com plenos poderes para revisar gastos, figuraria como o ideal para estabilizar as expectativas.

Caminhos possíveis e o risco de baixo crescimento

Diante do cenário realista, o governo tem a opção de preservar o arcabouço fiscal, desde que cumpra as metas com transparência, elimine artifícios contábeis que ocultam despesas e encerre desonerações tributárias direcionadas. Ainda assim, sem conter o avanço das despesas obrigatórias, o modelo fiscal enfrentará um ponto crítico em 2028.

Adotar medidas paliativas apenas empurra o problema adiante, resultando em um crescimento econômico medíocre e prolongado. Nessa dinâmica de maré baixa, qualquer abalo externo, como turbulências nas finanças dos Estados Unidos ou forte oscilação no preço das commodities, tem potencial para desencadear um colapso doméstico.

Qualquer ajuste fiscal consistente demanda que os gastos públicos cresçam em ritmo bem mais lento, sem que isso signifique o fim de políticas sociais. Sem essa reorganização das contas, o cerco financeiro continuará se fechando, travando a atividade produtiva, emperrando a queda das dívidas e minando a confiança de empresas e consumidores em uma espiral recessiva.

Fonte: Folha - Mercado