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Caderno Mercado

Maioria dos clubes da elite do Brasileirão acumula dívidas e salários atrasados

Maioria dos clubes da elite do Brasileirão acumula dívidas e salários atrasados

Mais da metade dos 20 times que disputam a elite do Campeonato Brasileiro enfrenta problemas com pagamentos pendentes. De acordo com um levantamento divulgado recentemente, 13 equipes da Série A acumulam compromissos em atraso, sendo que nove delas relataram débitos salariais com jogadores e funcionários até junho de 2026.

Radiografia do endividamento nas Séries A e B

A lista de times da primeira divisão com pendências com atletas ou colaboradores no primeiro semestre inclui Atlético-MG, Botafogo, Corinthians, Fluminense, Grêmio, Internacional, Santos, São Paulo e Vitória. No cenário da Série B, o quadro é ainda mais abrangente, com 11 agremiações reportando o mesmo tipo de atraso: América-MG, Atlético-GO, Avaí, Ceará, Criciúma, Cuiabá, Fortaleza, Náutico, Ponte Preta, Sport e Vila Nova.

As informações foram compiladas pela Anserf (Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol), órgão instituído pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) no começo de 2026 para fiscalizar o fair play financeiro. Por enquanto, as entidades esportivas informam apenas a existência ou não de atrasos, sem detalhar os montantes específicos dessas falhas pontuais.

Além dos salários, outras frentes apresentam problemas financeiros. O Athletico-PR registrou débitos relacionados a negociações de transferências com outras equipes, enquanto Vasco, Coritiba e Remo acumulam obrigações fiscais não quitadas com o poder público. Na Série B, o Goiás também reportou dívidas tributárias atrasadas. No total, dez equipes da elite e seis da segunda divisão encontram-se atualmente em processo de recuperação judicial ou sob acordos de pagamento com credores.

Passivo total chega a R$ 20 bilhões

A Anserf também passou a divulgar o panorama geral do endividamento dos 40 clubes das duas principais divisões nacionais com base em dados de dezembro de 2025. Somadas, as dívidas das equipes da Série A e da Série B atingem a marca de aproximadamente R$ 20 bilhões.

Apenas os 20 participantes da Série A acumulam um passivo conjunto de cerca de R$ 17,34 bilhões. O Atlético-MG lidera o ranking dos mais endividados, com R$ 2,21 bilhões (sendo R$ 1,26 bilhão de curto prazo e R$ 949 milhões de longo prazo). O Corinthians aparece logo atrás, com R$ 2,08 bilhões em obrigações (R$ 699 milhões de curto prazo e R$ 1,38 bilhão de longo prazo).

Na segunda divisão, o passivo total encerrou o ano passado em R$ 2,65 bilhões. O Sport detém o maior montante da categoria, com R$ 324 milhões, seguido de perto pelo Náutico, que soma R$ 291 milhões em dívidas.

Alerta de especialistas sobre crise e governança

"Tanto os atuais atrasos nos pagamentos quanto o tamanho e o crescimento das dívidas são sintomas de um problema ainda maior: a crise financeira e de liquidez dos clubes brasileiros", afirmou Moises Assayag, sócio-diretor da Channel Associados e especialista em finanças do futebol.

"É como se estivéssemos assistindo a um filme cujo desfecho inevitavelmente será trágico. Se nada for feito de diferente, o resultado será a insolvência, a incapacidade de seguir operando, com o colapso da sustentação econômica do futebol brasileiro", acrescentou.

Para contornar o cenário de insolvência, Assayag defende uma reformulação profunda na administração das instituições esportivas, combatendo a geração recorrente de déficits. Na mesma linha, Pedro Weber, especialista em negócios no esporte, aponta que a busca obsessiva por taças muitas vezes atropela a prudência financeira.

"Em alguns casos, existe uma busca por resultados esportivos imediatos que leva a decisões acima da capacidade financeira da operação", disse Pedro Weber, especialista em negócios no esporte.

"O desafio é construir um modelo em que o planejamento esportivo esteja alinhado à realidade econômica, com controle de custos, previsibilidade de receitas e responsabilidade na alocação de capital. Investimento é importante para desenvolver um clube, mas precisa vir acompanhado de governança e disciplina financeira. Sem isso, novos recursos podem apenas adiar problemas, em vez de resolver suas causas", assinalou Weber.

O papel fiscalizador da Anserf

Eduardo Carlezzo, advogado especialista em direito desportivo e sócio do Carlezzo Advogados, avalia que a agência reguladora tem adotado uma postura inicial educativa, aplicando advertências e concedendo prazos para a regularização, o que considera adequado para o primeiro ano de vigência das normas.

"Mas o verdadeiro teste virá em 30 de novembro, quando termina o período de transição para as dívidas anteriores a 2026. A partir daí, será fundamental que as regras sejam aplicadas com rigor e de maneira uniforme a todos os clubes, independentemente de sua dimensão ou relevância esportiva. Caso contrário, o fair play financeiro corre o risco de perder credibilidade logo no seu nascimento", afirmou o advogado.

O modelo de controle implementado no final de 2025 apoia-se em quatro eixos principais: controle de dívidas em atraso, equilíbrio operacional, restrição de gastos com o plantel e limites para o endividamento de curto prazo. A fiscalização das pendências financeiras ocorre em três datas anuais — 31 de março, 31 de julho e 30 de novembro —, com exigência de superavit operacional avaliado em ciclos de três anos para evitar punições e monitoramento especial.

Fonte: Folha Esportes