Crise global da Nike contrasta com forte avanço da marca no Brasil
A discussão sobre a decadência da Nike tornou-se um tema recorrente em todo o planeta. A multinacional de material esportivo sofreu uma retração drástica de três quartos em seu valor de mercado ao longo de cinco anos, sendo metade dessa perda registrada apenas nos últimos onze meses.
Rebaixamento na bolsa de valores Como reflexo desse cenário desfavorável, as ações da companhia deixaram o S&P 100 em setembro, após quase vinte anos na elite do índice que combina as bolsas NYSE e Nasdaq. Os papéis passaram a integrar o S&P 500, o que reduz o acesso a grandes fundos de investimento e abre margem para novas desvalorizações.
Para tentar conter o avanço da crise, a empresa prepara cortes drásticos batizados de “Pace”. O pacote prevê uma economia de US$ 2,5 bilhões até 2031, embora o volume total de demissões não tenha sido divulgado oficialmente.
Problemas na China e perda de atletas O mercado chinês atravessa um momento particularmente delicado, contabilizando dois anos consecutivos de retração nas receitas, com o pior trimestre encerrado em agosto com uma queda de 22%.
No aspecto simbólico, a situação não é melhor. A marca perdeu o atacante francês Kylian Mbappé para a concorrente suíça On. A ironia é que a gigante americana havia apostado no atleta quando ele tinha apenas oito anos, e acabou superada pela empresa cujo fundador desejava inicialmente criar calçados para a própria Nike.
Revés nas maratonas e polêmicas No setor de corrida, a marca sofreu um revés simbólico em abril na maratona de Londres, quando os atletas Tião Sawe e Yomif Kejelcha, patrocinados pela Adidas, quebraram a barreira das duas horas na distância — um feito buscado sem sucesso pela concorrente desde 2017 em condições oficiais.
Além disso, a cultura sneakerhead foi sacudida quando Bobbito Garcia publicou um vídeo descartando sua coleção de modelos da Converse. Ele também prometeu se desfazer dos calçados da marca principal — que controla a Converse desde 2003 —, motivado por uma campanha publicitária desastrosa que gerou comparações com a Ku Klux Klan.
Análise de mercado e o erro estratégico Especialistas apontam que a derrocada começou quando o ex-CEO John Donahoe, vindo do eBay, decidiu voluntariamente retirar os produtos de lojas multimarcas, apostando que apenas os canais próprios seriam suficientes para sustentar as vendas. A revista The Economist resumiu o momento ao afirmar que a empresa perdeu seu apelo cultural, embora mantenha enorme escala global, comparável a gigantes como Starbucks e General Motors.
Cenário favorável no Brasil Diferente do panorama internacional, a operação brasileira segue em ritmo de crescimento. No segundo trimestre de 2026, a Fisia, divisão da marca administrada pelo Grupo SBF — dono da Centauro —, registrou um salto de 27,5% na receita líquida em comparação ao mesmo período de 2025.
Impulsionado pelo impacto da Copa do Mundo, por contratos com clubes como Corinthians, Vasco, Atlético-MG e a CBF, e por um crescimento de 26% na categoria de corrida puxada pelas linhas Vomero, Pegasus e Structure, o negócio demonstra solidez. A marca também garantiu patrocínio à SP City até 2028 e mantém apoio a projetos sociais como o Vida Corrida, na periferia de São Paulo.
Fonte: Folha Esportes