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Caderno Mercado

Senado aprova PEC que acaba com a escala 6×1 e traz alívio para mães solo

Senado aprova PEC que acaba com a escala 6×1 e traz alívio para mães solo

A rotina exaustiva da operadora de caixa Luciana de Almeida, de 36 anos, começa às 5h da manhã no bairro de Realengo, no Rio de Janeiro. Após organizar as duas filhas pequenas para a escola, ela encara uma hora e meia de transporte público até o supermercado onde trabalha, em Campo Grande, a cerca de 20 quilômetros de distância.

A realidade da escala 6×1

Empregada no comércio sob o regime de seis dias de trabalho para apenas um de descanso desde os 18 anos, Luciana registrava o ponto de saída às 17h50 e só retornava para casa perto das 20h. O único dia livre da semana era tomado por afazeres domésticos e bicos de faxina para garantir o sustento das três crianças como mãe solo. “Estou com o corpo e, principalmente, com a mente muito cansados”, diz Luciana, que acrescenta: “No dia depois da folga, eu continuo trabalhando cansada.”

O cenário enfrentado pela carioca reflete a realidade de 14,8 milhões de brasileiros que estavam sob essa modalidade no final de 2025, o equivalente a pouco mais de um terço da mão de obra formal, segundo dados oficiais do Ministério do Trabalho.

Como será a transição da nova jornada

Na quarta-feira (14/10), o Senado aprovou por 75 votos a 1 a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue o regime e reduz a carga horária máxima no país. O texto determina uma implementação dividida em duas etapas. A primeira fase entra em vigor 60 dias após a promulgação, cortando a jornada semanal de 44 para 42 horas. Após 14 meses, o limite cairá para 40 horas semanais.

Para virar lei definitiva, a proposta ainda precisa passar por uma sessão solene nas Mesas Diretoras da Câmara e do Senado, sendo promulgada e integrada à Constituição. Com os novos prazos, Luciana viverá pela primeira vez a experiência de ter duas folgas semanais. “Vai mudar muita coisa”, diz. “Vou conseguir descansar, resolver coisas da minha vida, até fazer um extra se conseguir.”

Impacto na convivência familiar

O maior ganho apontado pelas trabalhadoras é a presença na criação dos filhos. Durante as férias recentes, Luciana teve um momento de reflexão em casa: “Estou vendo a vida dos filhos passar, não consigo ir em festa de dia das mães, junina, nada”, diz. Ela completa: “Preciso ter tempo com minhas filhas, ter algum lazer ou mesmo ficar em casa descansando.”

Em São Paulo, a gerente comercial Fabiane da Conceição, de 50 anos, compartilha do mesmo sentimento após passar 20 anos em empregos com apenas uma folga semanal. Criando dois filhos sozinha e sem rede de apoio, ela recorda as dificuldades do passado, quando gastava parte do salário para pagar alguém que buscasse as crianças na escola enquanto ela enfrentava duas horas de ônibus entre Sapopemba e a Barra Funda.

“Sinto hoje que perdi a maior parte das coisas que enxergo importante na criação dos filhos. Não os vi aprender a andar, não os levei ao primeiro dia da escola”, conta Fabiane, emocionada. “Eu não posso me arrepender porque era o que dava nosso sustento, mas não deixo de sentir a dor. Me sinto aliviada quando penso em pessoas mais jovens e outras mulheres que vão viver uma situação que não às leve à exaustão física e mental e à exclusão materna.”

Articulação política e próximos passos

A tramitação da PEC contou com reviravoltas no cenário político. A medida, que foi apresentada por parlamentares da esquerda e figurou como uma das principais bandeiras da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), teve o apoio do senador Flávio Bolsonaro (PL). Embora inicialmente tenha classificado a votação como “oportunista” por ocorrer às vésperas das eleições, ele votou a favor após se posicionar publicamente pela primeira vez. “A maioria dos trabalhadores brasileiros quer o fim da 6×1, então eu vou votar a favor do fim da 6×1”, declarou.

Enquanto o setor de comércio e serviços se prepara para as adaptações necessárias, trabalhadores e sindicatos celebram a conquista histórica que promete redefinir a qualidade de vida e a saúde mental da classe trabalhadora no Brasil.

Fonte: G1 Economia