Governo prorroga subsídio ao diesel e alerta para fragilidade do agro
O governo federal estendeu por 30 dias a subvenção de R$ 2,12 por litro de diesel, uma manobra adotada para mitigar o impacto da alta nas cotações internacionais do petróleo. A instabilidade no Oriente Médio e o conflito entre Rússia e Ucrânia continuam pressionando a matéria-prima, com o barril do brent oscilando entre US$ 100 e US$ 113 nas últimas semanas, patamar muito acima do limite de tolerância estipulado pela gestão federal.
O peso das importações e a capacidade de refino
Além da valorização da commodity, a desvalorização da moeda nacional encarece a importação do combustível. Embora seja um grande produtor de petróleo, o Brasil ainda precisa comprar do exterior cerca de um quinto de tudo o que consome. Em agosto, por exemplo, o diesel importado respondeu por mais de 23% das vendas nacionais do tipo A.
A produção interna das refinarias da Petrobras, que cresceu nos primeiros meses do ano, ainda é insuficiente para suprir toda a demanda interna. Analistas apontam que a venda de refinarias para a iniciativa privada nos últimos anos reduziu a autonomia do país. O professor Paulo Feldmann, da FEA-USP, questiona os custos de produção dessas unidades privadas, enquanto Francismar Ferreira, do Ineep, defende a ampliação e modernização do parque nacional de refino.
Por que o setor produtivo sofre tanto
A dependência histórica do modal rodoviário faz com que qualquer oscilação no preço do diesel afete drasticamente a economia nacional. Como o país escoa a maior parte de sua produção por rodovias e estradas, o encarecimento do frete gera um efeito cascata que atinge a produtividade e o custo final das mercadorias.
“Os combustíveis em geral, sobretudo gasolina e diesel, têm um impacto muito grande sobre o transporte de mercadorias. O Brasil é um país grande e precisa transportar cargas por longas distâncias, isso afeta muito a produtividade do Brasil”, afirma Paulo Feldmann, da FEA-USP.
Enquanto nações como Argentina e Estados Unidos contam com redes ferroviárias robustas para aliviar o escoamento, o Brasil segue refém das estradas. No campo, o cenário é de apreensão, com agricultores temendo inclusive o desabastecimento às vésperas do plantio de novas safras.
Reflexos diretos no bolso do consumidor
O agronegócio é um dos segmentos mais sensíveis à crise, já que utiliza o diesel tanto nas máquinas agrícolas durante o preparo da terra e colheita quanto na logística de escoamento. Esse desequilíbrio afeta diretamente a competitividade do país e pressiona a inflação dos alimentos.
“O aumento dos custos pode reduzir a competitividade das exportações e encarecer os alimentos no mercado interno”, afirma Paulo Feldmann, da FEA-USP.
O especialista complementa: “Todos falam que ‘da porteira para dentro’ a agricultura brasileira é a mais competitiva do mundo. O Brasil perde muito no transporte, que é o que mais afeta o custo.”
Limites dos subsídios e caminhos futuros
Especialistas alertam que a política de subsídios é um alívio de curto prazo, mas apresenta riscos. Murilo Viana, mestre em economia pela Unicamp, aponta que o controle artificial de preços pode desestimular importações por parte de empresas privadas, sobrecarregando a Petrobras e gerando riscos de abastecimento.
Para solucionar o problema de forma definitiva, os analistas concordam que o país precisa adotar medidas estruturais. Isso inclui diversificar as matrizes de transporte, investir em novas tecnologias, ampliar a capacidade de refino e fortalecer a produção interna de insumos essenciais, como os fertilizantes, blindando o setor produtivo contra futuras crises cambiais e internacionais.
Fonte: G1 Economia