Agronegócio brasileiro cobra equilíbrio entre China e Estados Unidos após eleições
O setor produtivo nacional reforça a necessidade de manter parcerias comerciais sólidas tanto com Pequim quanto com Washington, independentemente das eleições presidenciais e de alinhamentos ideológicos.
Cautela de Pequim na América Latina
Durante um evento realizado no Insper, em São Paulo, a especialista em China Larissa Wachholz explicou como o governo chinês avalia o cenário político sul-americano. Segundo a ex-assessora especial do Ministério da Agricultura, o país asiático monitora atentamente a região.
“A China tem olhado para a América Latina com muita cautela, buscando observar onde o seu investimento é bem-venido, onde as suas relações comerciais são bem-vindas e onde não são.”
A analista aponta que essa prudência aumentou devido à possibilidade de governos sul-americanos se aproximarem excessivamente da administração de Donald Trump.
“Os Estados Unidos têm deixado cada vez mais claro em seus documentos internos que eles veem a América Latina como uma região de influência norte-americana”, disse ela.
Wachholz acrescentou ainda que “Eles [os chineses] não querem se estabelecer em locais de confronto porque isso impõe um risco muito grande. Os investimentos precisam fazer sentido econômico e eles só vão fazer se houver estabilidade jurídica”.
Impactos na infraestrutura do agronegócio
Os aportes financeiros chineses têm sido fundamentais para solucionar gargalos logísticos e ampliar a competitividade das mercadorias brasileiras no exterior, especialmente no escoamento de itens que exigem rigoroso controle de temperatura.
“Hoje, nós temos investimentos importantes da China nessa área, que é o que acaba viabilizando a nossa exportação tão competitiva”, ressalta a especialista.
Ela complementa alertando que “Por ando, se é de interesse do Brasil continuar atraindo investimentos chineses, é importante fazer uma sinalização positiva para a China e não sinalizar confronto. Mesmo que a gente tenha, eventualmente, um governo mais alinhado com os Estados Unidos, “.
Como exemplo prático dessa cooperação, a empresa chinesa Cofco atua no terminal STS11 do Porto de Santos. Além disso, no Paraná, a TCP — controlada pela China Merchants Port — concluiu em 2024 uma expansão na capacidade de tomadas para contêineres frigoríficos no porto de Paranaguá, otimizando o envio de carnes congeladas.
A segurança alimentar acima da política
A visão de que o comércio exterior não deve se curvar a disputas político-partidárias é compartilhada por lideranças do setor, como Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), e Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global.
“Vou dar a mesma resposta que eu dei quando o [Jair] Bolsonaro saiu do governo. Frango não tem partido nem ideologia. Não dá para misturar isso. Isso é muito importante. O agronegócio trabalha para a segurança alimentar brasileira e de 170 países. Então não tem não tem governo que vai atrapalhar um negócio que representa 35% do PIB brasileiro”, afirmou o dirigente da ABPA.
Santin reforça que o peso estratégico do país na alimentação global blinda o fluxo de carnes e não projeta alterações nas vendas para o mercado chinês.
Por sua vez, Marcos Jank destacou que a postura protecionista e tarifária de Donald Trump acirrou a complexidade do comércio internacional. Para o acadêmico, o Brasil precisa transitar bem entre os dois gigantes econômicos sem romper pontes bilaterais.
“Nós temos que nos dar bem com os Estados Unidos e com a China, ou seja, isso é obrigatório”, concluiu.
Atualmente, dados do Ministério da Agricultura apontam que a China lidera o ranking de principais compradores do agronegócio brasileiro, seguida pela União Europeia e pelos Estados Unidos.
Fonte: G1 Economia