Reformas econômicas em países emergentes melhoram contas públicas mas geram insatisfação popular
As reformas econômicas aceleradas adotadas por nações em desenvolvimento têm recuperado a confiança de investidores internacionais e estabilizado as contas públicas, mas ainda falham em melhorar a qualidade de vida da população. Enquanto o mercado financeiro elogia medidas de ajuste, cidadãos comuns enfrentam custos mais elevados e perda severa do poder aquisitivo.
A realidade dos comerciantes na Argentina
Na periferia de Buenos Aires, a rotina de pequenos empresários ilustra essa divergência. Gustavo Raul Perez, que gerencia uma loja de materiais de construção, votou em Javier Milei em 2023, mas hoje sente os impactos negativos da política econômica atual.
Embora a inflação tenha diminuído drasticamente no país, o comerciante relata que o custo para recompor seus estoques triplicou, ao passo que seus compradores perderam a capacidade de consumo.
“Este plano econômico é para poucos”, afirma Perez. O lojista acrescenta ainda: “Havia uma classe média três anos atrás. Ela não existe mais”.
O contraste em outras economias emergentes
Essa contradição se repete em várias regiões do globo. No Marrocos, o crescimento de prédios comerciais contrasta com a revolta nas periferias. No Sri Lanka, o calote da dívida ficou no passado, mas os índices de pobreza permanecem elevados.
A eliminação de subsídios a combustíveis na Nigéria, a privatização de estatais no Egito e a abertura comercial no Uzbequistão ajudaram governos a lidar com choques externos. No entanto, essas ações geram revolta em quem não enxerga avanços práticos no cotidiano.
O ministro das Finanças da Nigéria comparou a negligência com a desigualdade ao ato de “sentar sobre pólvora”. Já o banco central marroquino aponta que o desemprego prolongado amplia o abismo entre o avanço macroeconômico e a percepção social.
“Quando as pessoas nos mercados emergentes enfrentam aumentos nos preços dos alimentos, dos combustíveis e da energia, é isso que elles sentem imediatamente”, afirma Torbjorn Soltvedt, da Verisk Maplecroft.
Falta de alternativas para os governos
Especialistas argumentam que os governos adotaram essas medidas impopulares pressionados por anos de crises sucessivas, como a pandemia e o impacto da guerra na Ucrânia. Cortes de gastos, flexibilização cambial e alta de juros tornaram-se incontornáveis.
Apesar dos impactos sociais, os governos “absolutamente não tinham outra escolha”, afirma Simon Quijano-Evans, da Macro Hive. Para ele, recusar tais ajustes exporia os países ao risco de um colapso nos investimentos externos.
Esse fluxo de capital retornou, fazendo com que as economias em desenvolvimento cresçam atualmente ao ritmo de 4% ao ano, o dobro das nações avançadas. Contudo, se a revolta social desestabilizar os governos, todo o progresso econômico e a geração de vagas de trabalho podem ser perdidos.
Um mundo em duas velocidades
No Marrocos, onde o investimento estrangeiro dobrou no último ano, tumultos liderados por jovens e tentativas de migração em massa evidenciam a desigualdade.
“O Marrocos está se desenvolvendo em duas velocidades diferentes”, afirma o engenheiro civil Anass Sayad.
Diante do desafio de absorver 1,2 bilhão de jovens que alcançarão a idade de trabalhar na próxima década, cresce o temor de que os investimentos atuais não sejam suficientes para gerar empregos em massa.
Pressão global e o peso dos alimentos
A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, alertou que a alta nos preços de insumos básicos e a queda na ajuda internacional elevam a pressão sobre as nações vulneráveis.
A vulnerabilidade é maior nos países em desenvolvimento porque os alimentos respondem por uma fatia de 30% a 50% dos índices de inflação, comparado a apenas 13% ou 14% nos Estados Unidos.
Em Colombo, capital do Sri Lanka, a vendedora Sirimodara Wadaramge Sriyakanthi acorda de madrugada para preparar refeições baratas, tentando manter os pratos por cerca de US$ 2.
“Vendo as marmitas por um preço razoável para que os cidadãos possam pagar”, afirma.
Mesmo com o fim formal da crise no país asiático, a moradora segue acumulando preocupações com os custos educacionais dos filhos, refletindo um cenário onde o alívio macroeconômico ainda não chegou à mesa das famílias.
Fonte: G1 Economia