Javier Milei aposta na Patagônia para transformar Argentina em polo global de IA
Em uma área isolada da estepe patagônica, próxima a um vulcão na região de Los Toldos, o barulho do vento se mistura ao som constante de servidores de computador. O local abriga uma estrutura de 12 MW que opera utilizando gás que seria descartado como subproduto da extração de petróleo de xisto nas proximidades, cercada por uma paisagem rochosa que lembra o cenário de Jurassic Park.
O potencial da Patagônia para a inteligência artificial
A iniciativa faz parte de um plano maior impulsionado pelo presidente Javier Milei, que busca consolidar o país sul-americano como um grande centro tecnológico. A estratégia envolve um projeto de lei com incentivos fiscais, a promessa de não regulamentar o setor e a abertura para corporações não humanas, além da aproximação com bilionários como Elon Musk e Peter Thiel. O governo argentino aposta na combinação de vastas extensões de terra e energia abundante para atrair investimentos estrangeiros.
Empresas do setor já demonstram interesse na região. A Pampa Energy relatou dispor de 800 MW de capacidade na província de Neuquén, enquanto a polonesa Green Capital anunciou planos para uma instalação de US$ 3 bilhões em Chubut. Para os defensores da ideia, levar a infraestrutura tecnológica para locais remotos soluciona o descompasso entre a abundância energética e a falta de demanda local por gás e eletricidade.
Desafios estruturais e resistência da oposição
Apesar do entusiasmo governamental, o país enfrenta desvantagens competitivas históricas. Com menos de 40 MW de capacidade instalada em data centers, a Argentina fica muito atrás de vizinhos como o Chile, que soma 400 MW, além de perder espaço na América Latina para Uruguai, México e Brasil. Críticos e ativistas ambientais também apontam riscos de agravamento do estresse hídrico e questionam os benefícios reais para a população local.
"Os benefícios são realmente excessivos", disse o ativista ambiental Oscar Soria.
Especialistas e analistas locais argumentam que o país deveria buscar modelos de desenvolvimento que agreguem valor tecnológico nacional, em vez de atuar apenas como fornecedor de recursos naturais. "Os data centers devem ser um meio, não o objetivo final", afirmou Daniel Yankelevich, do centro de estudos Fundar.
Perspectivas e novos investimentos
Analistas do setor avaliam que, embora o país chegue tarde à corrida tecnológica, as condições para implantação rápida ainda atraem o capital estrangeiro. Raimundo Diaz, vice-presidente executivo da Vistra Global Solutions, destacou que a nação apresenta poucas barreiras para o setor. "A Argentina é um dos únicos países com poucas restrições para implementar data centers de grande capacidade em um curto período", afirmou. "Está chegando tarde à festa, mas tem enorme potencial para recuperar o atraso."
Enquanto o projeto de incentivos aguarda aprovação no Senado e o debate sobre o uso de recursos naturais continua, desenvolvedores focam no treinamento remoto de modelos de IA, aproveitando a energia barata e abundante que continua a jorrar no subsolo patagônico.
Fonte: Folha - Mercado