Queda global de ações expõe temor do mercado com gastos bilionários em IA
As principais bolsas de valores ao redor do mundo registraram quedas expressivas após uma onda de vendas no setor de inteligência artificial. Na quinta-feira, o índice Nasdaq despencou 5,52%, marcando o seu sexto pior desempenho diário desde janeiro de 2020. No mesmo pregão, as perdas acumuladas por empresas do S&P 500 alcançaram a impressionante marca de US$ 3,317 trilhões, superando o valor de todas as companhias reunidas na bolsa brasileira.
Efeito cascata na Ásia No dia seguinte, a instabilidade se espalhou para os mercados asiáticos, provocando fortes retrações no Japão e na Coreia do Sul. O índice sul-coreano Kospi chegou a recuar mais de 8% durante as operações, forçando a ativação do mecanismo conhecido como circuit breaker para paralisar as negociações por 20 minutos.
A reação internacional reflete a apreensão dos acionistas em relação aos montantes astronômicos que as corporações de tecnologia estão injetando para liderar o avanço tecnológico. Enquanto os aportes financeiros batem recordes, Wall Street e os mercados internacionais exigem prazos claros para que esses custos se convertam em lucros reais.
O impacto nas gigantes americanas As chamadas “Magnificent Seven” sofreram um baque histórico de US$ 1,036 trilhão em valor de mercado em apenas uma sessão. A fabricante de chips Nvidia liderou as baixas absolutas ao perder US$ 446 bilhões, quantia equivalente a quase quatro vezes o valor total da Petrobras.
Fabricantes de semicondutores e componentes essenciais para o ecossistema digital lideraram as perdas, com recuos acentuados em empresas como AMD e Tesla. Analistas apontam que a corrida exige gastos massivos em infraestrutura e centros de dados, gerando um descompasso temporário entre as despesas bilionárias e a geração efetiva de caixa.
Fatores políticos e o gatilho eleitoral O cenário de instabilidade ganhou força adicional com o resultado das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, vencidas pelos democratas. A mudança política gerou receios sobre possíveis restrições regulatórias, licenças mais rígidas e tributações para a construção de novas instalações tecnológicas.
“A eleição americana não é a causa da queda. Ela foi o gatilho. O mercado de IA já vinha frágil”, afirma Celso Camilo, doutor em inteligência artificial e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG).
O especialista aponta que os principais riscos recaem sobre decisões estaduais ligadas ao fornecimento de energia elétrica e ao licenciamento ambiental para data centers, essenciais para sustentar o ecossistema digital.
O debate sobre uma possível bolha financeira Apesar do tombo histórico, especialistas ponderam que a oscilação não invalida o avanço tecnológico, mas evidencia uma correção nas expectativas de valorização das empresas.
“O mercado continua confiante na demanda por inteligência artificial, como mostram os resultados crescentes da área de computação em nuvem. Mas os investidores passaram a cobrar mais das empresas: não basta anunciar grandes investimentos em IA, é preciso mostrar que eles estão se transformando em receita e, principalmente, em geração de caixa”, afirma Nickolas Lobo, especialista de investimentos da Nomad.
Fonte: G1 Economia