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Caderno Mercado

Morte no futebol

Morte no futebol

É sempre doloroso e chocante quando a morte de um jogador de futebol profissional, no exercício de seu ofício, acontece. Por ser incomum, por ser inesperada, por atingir alguém que não é velho e que se encontra em plenas condições físicas, esbanjando saúde.

O espanhol Jesús de Miguel, de 30 anos, do Tenerife, morreu horas depois de uma colisão brutal com o goleiro, também Jesús, sobrenome Owono, de 25 anos, do Andorra, nascido na Guiné Equatorial.

A partida de segunda-feira (2) nas ilhas Canárias, pela segunda divisão, estava empatada (2 a 2) até os 51 minutos do segundo tempo, quando a equipe mandante tentou, num chutão desferido da defesa, um último contra-ataque.

Jesús de Miguel, do Tenerife, caído no gramado do estádio Heliodoro Rodríguez López depois de colisão violenta com Jesús Owono, do Andorra
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Reprodução LaLiga News no X

De Miguel partiu, sem marcação e sem impedimento, pois iniciou a corrida do próprio campo, em direção à bola. Do outro lado, vendo-se como último defensor quando a redonda iniciou a trajetória, Owono disparou, à la Usain Bolt, para interceptar a jogada.

Os dois chegaram simultaneamente e colidiram no círculo central. Owono vinha bem mais rápido e saltou. Pela imagem em vídeo, o camisa 9 nem viu a chegada do goleiro. No seu pulo, o camisa 25 acertou em cheio, com o joelho, o peito do atacante, que desabou.

Não foi proposital, é possível assegurar. Porém, devido à falta ríspida, Owono foi imediatamente expulso pelo árbitro. Ia saindo do campo, conformado, quando olhou para trás e viu um bolo de jogadores em volta de De Miguel, que estava desacordado –teve parada cardiorrespiratória.

Atendido, foi levado ao hospital. Na UTI, a condição neurológica agravou-se, e ele morreu. Deixou esposa e uma filha, de 1 ano e 4 meses, que, presentes no estádio, viram o incidente. O último gol de De Miguel, registro, foi no dia 12 de abril, no 1 a 1 contra o Mérida.

Antes de Galatasaray x Stuttgart, na Champions League, telão em Istambul mostra De Miguel, em memória ao atacante que morreu horas antes
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Murad Sezer – 3.nov.26/Reuters

É extremamente incomum uma situação de choque entre futebolistas acabar da pior maneira. Minhas pesquisas apontaram só nove casos em que o contato violento, sempre sem intencionalidade, resultou em morte.

A primeira em 1931, na Escócia: o goleiro John Thomson, 22, do Celtic, em trombada com um atacante do Rangers, que resultou em fratura craniana. A penúltima, no ano passado: também um goleiro, compatriota de De Miguel, Raúl Ramírez, 19, na quinta divisão espanhola, em choque cabeça x cabeça.

CHOQUES FATAIS

Mortes no futebol decorrentes de colisões entres jogadores

  • John Thomson (Escócia), goleiro, 22 anos – Celtic

    Celtic x Glasgow Rangers (1931)

  • José Antonio Gallardo (Espanha), goleiro, 25 anos – Málaga

    Celta de Vigo x Málaga (1986)

  • Vágner Bacharel (Brasil), zagueiro, 35 anos – Paraná Clube

    Paraná Clube x Campo Mourão (1990)

  • Serhiy Perkhun (Ucrânia), goleiro, 23 anos – CSKA Moscou

    Anzhi Makhachkala x CSKA Moscou (2001)

  • Akli Fairuz (Indonésia), atacante, 27 anos – Persiraja Banda Aceh

    Persiraja Banda Aceh x PSAP Sigli (2014)

  • Choirul Huda (Indonésia), goleiro, 38 anos – Persela Lamongan

    Persela Lamongan x Semen Padang (2017)

  • Helar Gonzales Altamirano (Peru), atacante, 21 anos – Real Titan

    Defensor Nueva Cajamarca x Real Titan (2025)

  • Raúl Ramírez (Espanha), goleiro, 19 anos – Colindres

    Revilla x Colindres (2025)

  • Jesús de Miguel (Espanha), atacante, 30 anos – Tenerife

    Tenerife x Andorra (2026)

  • Relembre jogadores que morreram devido a incidentes durante partidas

No caso de De Miguel, as autoridades iniciaram investigações para apurar possíveis responsabilidades nessa tragédia esportiva. Owono será condenado? Criminalmente, é improvável. Esportivamente, talvez. Não houve dolo, mas a imprudência pode resultar em consequências, que vão de multa à suspensão do futebol por tempo determinado.

O goleiro Jesús Owono, do Andorra, que terá a responsabilidade na morte de Jesús de Miguel investigada pelas autoridades espanholas
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Gabriela Biló – 31.dez.25/AFP

É justamente a ação irrefletida, imponderada, que precisa ser discutida. Owono deveria saber que, da maneira como agiu, na velocidade em que estava, havia risco elevado de, no caso de imperícia (e foi o que houve, pois acertou De Miguel em cheio), um infortúnio.

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Os jogadores, cada um e o todo, e isso vale não só para os profissionais como para os amadores, para os boleiros de ocasião, precisam, antes de qualquer partida ou pelada, relembrar esse caso, conscientizarem-se de que, acima da vontade de ganhar, há a necessidade de viver, de terminar o jogo sem a ocorrência de uma desgraça que uma dose básica de cautela e sensatez evitaria.

Fonte: Folha Esportes