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Caderno Mercado

Proposta de Lara Resende para limitar Selic causa tensão no mercado

Proposta de Lara Resende para limitar Selic causa tensão no mercado

Uma estratégia defendida pelo economista André Lara Resende para reduzir a taxa Selic por meio da integração entre as políticas fiscal e monetária entrou no radar de aliados do governo federal. A mera possibilidade de debater o tema com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva gerou forte apreensão no mercado financeiro.

Reação do governo e bastidores políticos

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que nenhuma ideia de tabelamento de juros está na mesa do presidente Lula.

“Não há nenhuma reunião agendada entre o presidente e Lara Resende. Há uma série de economistas que se colocaram à disposição para colaborar, em contato com Aloízio Mercadante [presidente do BNDES], mas não há encontro previsto”, disse Durigan.

Três integrantes da equipe econômica confirmaram a tentativa de agendar conversas com especialistas que tragam diferentes visões sobre o problema fiscal, mas sem previsão formal para um encontro com o economista. Em nota oficial, o presidente do PT nacional, Edinho Silva, criticou as especulações em torno do assunto.

“As especulações na área econômica não colaboram com o país e só fazem o jogo dos especuladores, dos oportunistas do mercado, daqueles que apostam contra o governo Lula, contra o futuro do país. O único que fala em nome do governo Lula na política econômica é o ministro Dario Durigan”, disse.

Em contrapartida, a deputada federal e ex-ministro Gleisi Hoffmann (PT-PR) elogiou a discussão nas redes sociais. No X, ela declarou que o artigo de Lara Resende “é fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira”.

Detalhes da tese e o diagnóstico da dívida

Lara Resende argumenta que a dinâmica da dívida pública — atualmente em 82,9% do PIB — é impulsionada pelos juros elevados, e não pelos gastos primários. Para conter o avanço das despesas financeiras, a proposta prevê um formato de controle gradual da Selic, que seria balizada entre a meta de inflação e o crescimento nominal potencial do PIB.

O plano incluiria ainda a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para fixar metas de longo prazo. O economista reconhece que a queda abrupta dos juros poderia gerar pressão inflacionária inicial via câmbio, mas sugere o uso das reservas internacionais, estimadas em US$ 350 bilhões, para mitigar o impacto.

Críticas do mercado e de especialistas

Gestores de grandes bancos avaliaram que a tese ignora a credibilidade fiscal e pode resultar em dominância fiscal. Para eles, a medida desestruturaria a autonomia do Banco Central e desancoraria as expectativas inflacionárias.

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, apontou paralelos com tentativas anteriores de intervenção nos juros.

“Isso já foi feito, de certa forma, em 2012 e foi um desastre, com a inflação subindo para o teto de 6,5%. Fazer isso agora, com a percepção de risco em que estamos, vai levar a mais depreciação cambial e mais inflação”, afirma.

“Baixar os juros nos próximos anos vai demandar esforço, não será por mágica. Não temos condições de trazer a Selic para os 6,5% de 2019, pois três condições não estão atendidas: juros americanos elevados, resultado fiscal gradativamente pior e impulso fiscal significativo na economia que atrasa a desaceleração que poderia ajudar o BC.”

No mesmo sentido, o pesquisador do Insper Marcos Mendes questionou a viabilidade prática da tese em um cenário de desequilíbrio nas contas públicas.

“Toda proposta depende de um ajuste fiscal estrutural. Ora, se fizer tal ajuste, não há problema monetário ou de juros. A proposta equivale à velha piada do economista perdido em uma ilha e que precisa abrir uma lata de conserva e começa dizendo: ‘Suponha que temos um abridor de latas'”, afirma.

Fonte: Folha - Mercado