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Caderno Mercado

Ibovespa despenca e investidores recalculam rota na bolsa brasileira

Ibovespa despenca e investidores recalculam rota na bolsa brasileira

A expressiva desvalorização da bolsa brasileira após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recolocou em pauta uma dúvida recorrente entre os aplicadores: vale a pena aproveitar os valores mais baixos para adquirir ativos ou o mais prudente é aguardar a estabilização do mercado?

O tamanho do tombo na B3

O Ibovespa recuou 13,88%, aos 176.608 pontos, anotando a maior retração diária desde março de 2020, no início da pandemia de Covid-19, período em que o índice caiu 13,92% no dia 20. Com o recuo, o mercado acionário nacional viu evaporar R$ 734 bilhões em valor de mercado, montante equivalente a quase toda a avaliação da Petrobras, estimada em R$ 746 bilhões, segundo dados levantados pela Elos Ayta.

Esse movimento refletiu a surpresa de parte dos agentes financeiros com o desfecho das urnas. Quem apostava em uma transição para uma administração de centro-direita iniciou uma revisão de estratégias diante das dúvidas sobre os rumos da economia, a expansão dos gastos públicos e a gestão da dívida soberana.

Preço baixo é sinônimo de oportunidade?

Contudo, a desvalorização das cotações não indica que todos os papéis estão baratos ou que o momento seja o ideal para compras precipitadas. Conforme especialistas, a tomada de decisão precisa considerar a solidez de cada companhia, a geração de caixa e o patamar de endividamento.

Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, pontua que a queda nos valores não representa, necessariamente, uma perda na capacidade produtiva das empresas:

“Uma queda de 10% tampouco significa que as empresas perderam, de um dia para o outro, 10% de sua capacidade de gerar resultados. Significa que os investidores passaram a aceitar preços menores diante dos riscos percebidos.”

A executiva explica que, em um ambiente macroeconômico mais volátil, o mercado exige prêmios maiores para compensar o risco. A Vault Research acrescenta que parte do recuo decorre da reversão de apostas em um governo de centro-direita, movimento que levou à retirada de cerca de US$ 4 bilhões (R$ 21,5 bilhões) que haviam ingressado na bolsa em outubro. Para a corretora, no entanto, os desafios persistem:

“Mesmo depois do tombo, o Ibovespa segue cerca de 9% acima do início do ano, com fiscal, inflação e balanço das empresas piores. Pode haver alívio pontual, mas a direção é de queda.”

Exportadoras e ações defensivas no radar

Diante desse cenário adverso, o BTG Pactual sugere cautela na seleção de ativos. A instituição prioriza corporações com receitas atreladas ao dólar, menor alavancagem ou atuação em segmentos resilientes às flutuações econômicas.

“As perspectivas de um real mais fraco podem favorecer as ações de exportadoras, como as produtoras de commodities metálicas, petróleo e gás, commodities agrícolas e exportadoras industriais”, indicam os analistas do banco.

Entre as empresas citadas estão Gerdau, Suzano, Vale, PRIO, SLC Agrícola, 3Tentos, São Martinho, WEG e Embraer. Além das exportadoras, o portfólio defensivo engloba companhias com balanços sólidos:

“Empresas com balanços fortes (baixa alavancagem ou posição de caixa líquido) e que atuam em setores defensivos também devem se sair relativamente bem. Seguradoras como Caixa Seguridade e Porto Seguro e a fabricante de bebidas Ambev devem apresentar desempenho superior.”

A Petrobras, protegida pela cotação do petróleo e distribuição de dividendos, e o Itaú Unibanco, considerado preparado para intempéries econômicas, também integram as recomendações da instituição financeira.

Desafios fiscais e juros elevados

A análise de compra também exige atenção ao impacto dos juros elevados por um período prolongado, fator que encarece empréstimos e compromete o pagamento de débitos anteriores. O cenário de inadimplência e recuperação judicial no país reforça a necessidade de se observar a saúde financeira das corporações.

Além dos fundamentos empresariais, o desempenho da bolsa dependerá da condução das contas públicas. Para o Goldman Sachs, a política fiscal continuará no centro das atenções dos investidores internacionais.

Alberto Ramos, chefe de Pesquisa Econômica para a América Latina do banco, destaca que a reação dos mercados dependerá de diretrizes claras do governo, incluindo a definição da equipe econômica e o controle da dívida. A relação com o Poder Legislativo também adiciona complexidade ao cenário político:

“Dada a composição mais à direita do Congresso, o presidente Lula provavelmente enfrentará desafios ainda maiores do que no mandato atual por conta do bloco de oposição conservadora maior e pelo fato de seu capital político ser limitado, visto que não poderá buscar a reeleição em 2030”, argumenta Ramos.

Fonte: G1 Economia