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Caderno Mercado

A visão econômica de Lula e o pensamento keynesiano no Brasil

A visão econômica de Lula e o pensamento keynesiano no Brasil

Durante entrevista concedida à emissora de televisão Globo na quinta-feira (15), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abordou os rumos do país e declarou que “o que faz a economia crescer é a microeconomia”. Na ocasião, o chefe do Executivo federal complementou afirmando que “é fazer o dinheiro rodar na mão do povo. Se o dinheiro fica concentrado na mão de meia dúzia de pessoas, o Brasil vai continuar pobre”.

A demanda efetiva e o consumo popular Essa perspectiva defendida pelo governo dialoga diretamente com o conceito que o economista britânico John Maynard Keynes denominou de “princípio da demanda efetiva”. Quando o setor produtivo enfrenta cenários de ociosidade — com maquinário ocioso e trabalhadores sem ocupação —, a injeção de recursos e o aumento dos gastos públicos atuam como catalisadores para reativar o ciclo produtivo e impulsionar o avanço do Produto Interno Bruto (PIB).

A dinâmica do modelo keynesiano Na narrativa frequentemente utilizada pelo presidente, a circulação de capital nas mãos da população estimula o comércio varejista, que por sua vez realiza novos pedidos junto ao parque industrial. Esse processo reduz os estoques acumulados e incentiva as fábricas a abrirem novas vagas de emprego, absorvendo mão de obra ociosa.

Paradigmas econômicos e o debate nacional Entre diversos analistas do mercado financeiro no país, consolidou-se uma interpretação de que o estado natural de uma economia de mercado seria marcado por ociosidade constante. Sob essa ótica, a premissa de que o dispêndio estatal sempre resulta em expansão econômica ganha força, alinhando-se a trechos da obra “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”.

A obra clássica e os ciclos econômicos No capítulo 22 de sua principal publicação, o próprio Keynes apontou que “o remédio correto para o ciclo econômico não reside em eliminar os períodos de expansão, mas sim em eliminar as recessões, mantendo-nos, assim, permanentemente em um estado de quase boom econômico”. No entanto, a complexidade do pensamento keynesiano também contempla limites para a aplicação desses estímulos estatais.

Limites da capacidade produtiva Em artigos publicados no jornal britânico The Times no início de 1937, Keynes ponderou sobre os riscos de manter estímulos generalizados quando o país se aproxima da plena utilização de sua capacidade produtiva. Na época, ele escreveu: “Mas acredito que estamos nos aproximando —ou já alcançamos— o ponto em que não há grande vantagem em aplicar um novo estímulo geral na economia. Enquanto os recursos excedentes estavam amplamente distribuídos entre setores e localidades, não importava muito em que ponto da estrutura econômica o impulso de uma demanda crescente era aplicado. No entanto, crescem as evidências de que a estrutura econômica é, infelizmente, rígida, e de que (por exemplo) a atividade de construção nas regiões próximas à capital é menos eficaz do que se poderia esperar para reduzir o desemprego nas áreas economicamente deprimidas”.

O risco inflacionário A transição para um cenário sem ociosidade generalizada traz novas complexidades para a gestão macroeconômica. Em outro artigo veiculado pelo The Times em março de 1937, o economista alertou que “é quando a demanda crescente já não é capaz de elevar significativamente a produção e o emprego, esgotando-se principalmente na elevação dos preços, que se pode propriamente falar em inflação. Quando se atinge esse ponto, a nova demanda apenas compete com a demanda existente pelo uso de recursos que já estão sendo plenamente utilizados”.

O cenário atual do país A persistência de pressões inflacionárias e o patamar elevado das taxas de juros, reflexos diretos da expansão dos gastos públicos e do fomento à demanda interna, sugerem que o cenário macroeconômico brasileiro atual apresenta semelhanças com o panorama enfrentado pelo Reino Unido no final da década de 1930.

Fonte: Folha - Mercado