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Caderno Mercado

Mineração de terras raras em Minas Gerais avança com investimento bilionário

Mineração de terras raras em Minas Gerais avança com investimento bilionário

A companhia australiana Viridis deu início aos pedidos de equipamentos para a futura extração de terras raras em Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais, mesmo diante de protestos organizados por moradores da região contra o empreendimento.

O avanço do projeto Colossus

Com um aporte estimado em US$ 450 milhões, o equivalente a cerca de R$ 2 bilhões, a empresa busca consolidar uma iniciativa robusta no setor dentro do território nacional. A corporação firmou uma parceria comercial com a belga Solvay para o refino do material extraído no interior mineiro.

Os insumos extraídos, que incluem elementos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, são vitais para a fabricação de ímãs de alta performance aplicados em motores elétricos, turbinas eólicas e aparelhos de ressonância magnética. O mercado global é dominado pela China, mas o cenário aponta para uma descentralização nas próximas etapas. Atualmente, o Brasil conta com apenas uma operação comercial ativa no segmento, localizada em Minaçu, Goiás.

“A gente irá lavrar a argila e remover quimicamente as terras raras na forma de um carbonato. Estamos trazendo uma tecnologia em associação com a Solvay para remover um dos componentes desse carbonato, que é o lantânio, que não tem grande valor. Depois, a unidade da Solvay na França vai processar este material e abastecer a comunidade europeia”, diz à Folha Klaus Petersen, diretor-executivo da Viridis Brasil.

A companhia obteve a licença prévia em dezembro de 2025 após análise do Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais e agora aguarda o aval para a instalação. Além disso, o BNDES aprovou um financiamento de R$ 77,5 milhões voltado a minerais críticos para a transição energética.

“Esse é um empréstimo para ser aplicado em desenvolvimento industrial, ou seja, nas plantas demonstrativas. Uma delas a gente já construiu por conta. A gente pretende construir mais duas a partir do ano que vem, que é a parte de reciclagem e a parte de separação dos óxidos. É um recurso separado do nosso Capex, que não entrará na construção da mina”, afirma Petersen.

Resistência de comunidades locais

A corrida por minerais estratégicos em municípios mineiros como Poços de Caldas, Caldas e Andradas gerou uma concentração de sete projetos de terras raras. Juntas, as iniciativas preveem movimentar mais de 10 milhões de toneladas de material anualmente, além de demandar cerca de 180 mil metros cúbicos de água por mês.

O projeto Colossus recebeu classificação máxima no impacto ambiental estadual. A proximidade das escavações, previstas para ficarem a até 300 metros de residências, gera forte preocupação na população.

“O projeto tem um ponto crítico que são as residências do conjunto habitacional paralelo à avenida Yolanda e se estende a outro ponto crítico, no Jardim Contorno e Paraíso, uma região que concentra 60 mil pessoas”, diz Danielle Vilas Boas, integrante do coletivo Rara é a Vida, criado a partir de uma reunião da Viridis com a comunidade local.

“Quando conversamos com as autoridades, entendemos que essa mineração tão próxima da zona urbana é algo novo no país.”

“Quando você tem uma mineração nova num risco de impacto desse, que vai ser produzida numa escala que nunca foi testada nesse país por uma empresa que não tem experiência em mineração de terras raras, isso é um laboratório a céu aberto e a gente é cobaia”, diz Vilas Boas.

Em resposta aos questionamentos, a diretoria da empresa alegou que avalia a possibilidade de adiar as escavações nas áreas mais próximas às residências e destacou a criação de planos para conter a poeira e mitigar danos.

“Já fizemos um acordo com a prefeitura para que a gente postergue isso para avaliarmos os impactos. Se for comprovado que realmente incomoda, a gente muda o plano”, afirma Petersen.

“A gente vai ter cercas de árvores que já filtram uma parte dessa poeira, além do uso da água. Vamos trabalhar a úmido para não gerar poeira. O nosso papel é mitigar isso ao máximo. A gente não pode comprometer a saúde da comunidade em absoluto. O licenciamento ambiental considera isso”, afirma.

Impactos e fiscalização federal

A mobilização popular resultou no envio de uma carta ao governo federal e em uma visita de comitiva interministerial à região. O relatório oficial apontou riscos ligados à contaminação de mananciais, proximidade com passivos radioativos e poluição sonora e atmosférica.

Diante do cenário, o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União solicitou uma auditoria operacional para averiguar os órgãos fiscalizadores federais envolvidos nas autorizações.

A mineradora defende a segurança do processo e nega riscos de poluição hídrica decorrentes das operações.

“Quase que 50% do custo da nossa planta é com respeito à recuperação de água, filtragem, recuperação de componentes químicos e qualquer contaminante, e a lavagem da argila para neutralizá-la totalmente quanto a algum contaminante que a gente usou.”

“A gente usa sulfato de amônio para extrair as terras raras, que é um dos componentes fertilizantes, mas a gente não volta a argila contaminada com sulfato de amônio. Usamos um processo de três tanques gigantes de lavagem com água nova, que é a água filtrada do sistema, e ela lava argila para não termos esse problema [de contaminação].”

Fonte: Folha - Mercado