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Caderno Mercado

Ataque cibernético eleva temperatura de geladeiras e ameaça mercado na França

Ataque cibernético eleva temperatura de geladeiras e ameaça mercado na França

Um ataque cibernético direcionado aos sistemas de refrigeração de grandes redes varejistas na França elevou drasticamente a temperatura de refrigeradores e gerou forte preocupação sobre a infraestrutura e a segurança alimentar do país.

Alvos e prejuízos no varejo francês

O incidente, registrado no domingo (11), comprometeu cerca de 80 estabelecimentos pertencentes à Coopérative U, de um total de 2.000 unidades, conforme detalhado por Dominique Schelcher à rádio francesa RTL na terça-feira (13). O executivo-chefe classificou o episódio como um ataque “sem precedentes” e “extremamente grave” à segurança alimentar do país.

Além disso, centenas de unidades comerciais ligadas a marcas como Carrefour, Intermarché, Monoprix e Netto também sofreram interferências. Os criminosos assumiram o controle digital dos equipamentos e forçaram o aumento da temperatura interna.

Em uma unidade do Intermarché localizada em Le Haye, no noroeste francês, medidores registraram marcas de até 80°C em alguns refrigeradores, cenário que resultou na destruição de equipamentos e na perda de mantimentos. “Nunca imaginaríamos algo assim em nossa loja rural do Intermarché. […] É uma perda operacional enorme”, afirmou o gerente Julien Fréret em uma publicação em rede social na qual pediu desculpas aos clientes. O grupo Mousquetaires, controlador das redes Intermarché e Netto, pontuou que os itens comprometidos foram descartados rapidamente e que as atividades retomavam a normalidade de forma gradual.

Investigação oficial e contexto de segurança

Diante da gravidade, a unidade de crimes cibernéticos da Procuradoria de Paris assumiu o caso e abriu uma investigação em âmbito nacional. O episódio ocorre em um momento de atenção redobrada na Europa; em setembro, o presidente francês Emmanuel Macron determinou a ampliação da vigilância contra invasões digitais devido ao risco de ações híbridas russas.

Apesar da amplitude do problema, Schelcher ponderou que apenas “uma minoria” das lojas da Coopérative U foi atingida e que a perda de produtos foi contida graças à intervenção rápida de funcionários. Contudo, ele reforçou: “Estão atacando o abastecimento alimentar dos franceses. Em toda a minha carreira profissional, nunca vi nada parecido”. Até o momento, a autoria do crime permanece desconhecida.

Falhas em softwares e posicionamento técnico

Especialistas internacionais demonstraram surpresa com o modus operandi. Ciaran Martin, ex-diretor-executivo do Centro Nacional de Segurança Cibernética do Reino Unido, apontou o caso como um dos mais atípicos de sua trajetória. “A essência dos ataques de ransomware e da atividade criminosa é extorquir dinheiro para impedir que algo aconteça. Mas eles já fizeram o pior, e não há indícios de qualquer exigência [de resgate]”, declarou.

Investigações preliminares apontam que o software dos refrigeradores foi desenvolvido pela empresa dinamarquesa Danfoss e instalado por uma companhia terceirizada. Em agosto, pesquisadores da Claroty já haviam reportado vulnerabilidades nesses sistemas, falhas que teriam sido corrigidas posteriormente pela fabricante. Em nota divulgada na terça-feira (13), a Danfoss esclareceu que os problemas na França recaíram sobre unidades com versões desatualizadas de softwares e que não recebiam mais patches de segurança. “Levamos esses incidentes a sério e estamos em contato próximo com os clientes afetados para ajudá-los a lidar com a situação”, concluiu a companhia.

Fonte: Folha - Tecnologia