Por que usuários estão usando o LinkedIn como aplicativo de namoro?
Com a saturação dos aplicativos de relacionamento tradicionais, uma parcela dos usuários encontrou uma alternativa inusitada para a busca de romance: o LinkedIn, a maior rede social voltada ao mercado de trabalho do mundo. Embora a plataforma seja estritamente corporativa, a prática de flertar por lá divide opiniões e gera debates acalorados sobre limites e ética profissional.
Os riscos e as regras da plataforma corporativa Uma pesquisa realizada pela Zety com mais de mil trabalhadores nos Estados Unidos revela que o tema é polêmico. Enquanto a ampla maioria de 74% dos entrevistados acredita que paquerar na plataforma ultrapassa os limites profissionais, cerca de um em cada quatro considera aceitável usar a rede para buscar um relacionamento amoroso.
O tabu em torno do assunto é tão forte que encontrar pessoas dispostas a falar abertamente sobre o tema exige esforço, já que muitos temem represálias e danos futuros à própria carreira. Profissionais que já viveram essa experiência relatam desde inícios sutis, com curtidas em sequência e migração para outras redes sociais, até abordagens agressivas e desconfortáveis.
“Era uma abordagem corajosa, mas, ao mesmo tempo, discreta. Poderia facilmente ter passado por uma conversa profissional, mas havia sempre alguma coisa nas entrelinhas”, afirma João*, que conheceu seu ex-namorado após receber uma solicitação de conexão na rede.
Abordagens invasivas e assédio virtual Se por um lado existem conexões que evoluem de forma natural, por outro a realidade de quem recebe investidas indesejadas costuma ser desagradável. Mulheres relatam com frequência o recebimento de mensagens com foco na aparência física, totalmente descontextualizadas do ambiente corporativo.
“Foi bem direto mesmo. Não teve nem a audácia de puxar conversa e perguntar algo profissional. Não teve nenhum cuidado por ser uma rede social profissional”, lembra Patrícia Gazolla, analista de recursos humanos (RH).
“Eu me senti desrespeitada. Foi um baque, porque nunca tinha recebido uma mensagem desse tipo no LinkedIn. Você precisa parar, ler aquilo, pensar no que vai responder. Aquele não é um espaço para esse tipo de abordagem”, afirma Patrícia.
Para Julia Meireles, estagiária de marketing, a situação gera surpresa e estranhamento. “Eu achei extremamente bizarro. Você está no LinkedIn, uma rede em que espera receber contatos profissionais, seja para uma oportunidade de emprego, contratação ou networking, e acaba recebendo um flerte completamente fora de contexto”, conta.
Posicionamento oficial da rede social Procurado pela reportagem, o LinkedIn afirmou em nota que a plataforma é uma comunidade profissional e que investidas românticas e assédio violam suas políticas. A empresa informou ainda que mantém equipes e tecnologias para remover conteúdos prejudiciais e orienta os usuários a denunciar interações inadequadas.
Por que o LinkedIn atrai quem busca romance? Especialistas apontam que a migração para a rede profissional está ligada à busca por credibilidade e segurança. Aplicativos de relacionamento muitas vezes geram frustração devido a perfis falsos e dados difíceis de verificar, um problema menor em uma plataforma onde o histórico de carreira, a formação e as conexões são públicos.
“Você cria essa credibilidade com base em associação de elementos”, afirma João Finamor, professor de Marketing da PUC-RS.
A opinião é compartilhada por Prila Milk, especialista em estratégia de mídias sociais e professora da ESPM, que destaca a sensação de segurança gerada pelas conexões em comum. “Quando você conhece uma pessoa totalmente do zero, a gente não sabe realmente o histórico. Agora, se eu sei que eu tenho conexões com essa pessoa, é quase que uma sensação de que a gente vive no mesmo universo.”
Riscos reais para a reputação e o emprego Apesar da curiosidade em torno do fenômeno, especialistas alertam que misturar romance e trabalho pode custar caro para a vida profissional. A abordagem fica diretamente associada à identidade corporativa do usuário.
“No LinkedIn você não está flertando apenas com seu nome, está flertando através do seu crachá profissional”, afirma Denise Rendtorff, sócia e diretora-geral da Talenses Human Capital.
Além do risco de constrangimento em processos seletivos futuros — afinal, o pretendente rejeitado pode ser o seu próximo entrevistador —, a insistência após recusas ou o envio de mensagens de cunho sexual podem configurar assédio.
“Uma interação que naturalmente evolui, com interesse mútuo e sem pressão, é muito diferente de abordar alguém do nada com comentários sobre aparência, insinuações ou mensagens invasivas”, conclui Solange Feliciano, diretora de Comunicação e Marketing da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-SP).
Fonte: G1 Economia