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Caderno Mercado

Concentração de votos expõe falha estratégica do PSOL na Câmara

Concentração de votos expõe falha estratégica do PSOL na Câmara

A eleição para a Câmara dos Deputados trouxe um cenário de frustração para o PSOL. Embora tenha contado com fortes puxadores de voto em vários estados, a legenda de esquerda sofreu perdas de cadeiras na disputa federal e acabou sem acesso aos recursos do fundo partidário e à propaganda gratuita.

O impacto dos puxadores de voto Figuras de destaque como Erika Hilton e Sâmia Bomfim, ambas em São Paulo, além de Jones Manoel, em Pernambuco, registraram marcas expressivas nas urnas. Contudo, a votação não foi suficiente para puxar colegas de partido para o parlamento, já que os demais candidatos da sigla falharam em atingir o patamar mínimo exigido pela legislação eleitoral.

Com esse desempenho abaixo do esperado, o PSOL ficou de fora da chamada cláusula de barreira. O mecanismo estabelece que as legendas precisam eleger pelo menos 13 deputados distribuídos por nove estados ou alcançar 2,5% dos votos válidos para a Câmara em nove unidades da federação, com um piso de 1,5% em cada uma delas. A ausência desses critérios corta o repasse de verbas públicas e o tempo de rádio e TV, comprometendo a sobrevivência e a expansão da sigla.

A disparidade com o modelo da direita A situação do PSOL contrasta com a estratégia adotada pelo PL. Em Minas Gerais, por exemplo, o alto volume de votos recebidos por Nikolas Ferreira impulsionou o partido a conquistar 21 vagas, elegendo inclusive nomes com votações menos expressivas. A diferença ocorreu porque os demais candidatos da legenda conseguiram atingir o quociente mínimo no estado, cenário que não se repetiu entre os psolistas.

Reflexão sobre as campanhas baseadas em opinião Sâmia Bomfim avalia que planejar campanhas movidas principalmente por opinião pública é um desafio complexo. “É muito difícil calcular quantos votos um candidato terá quando não é eleição por máquina, território ou aparato”, disse a deputada reeleita.

No Distrito Federal, Fábio Felix foi o candidato mais votado para a Câmara, mas terminou o pleito sem nenhum colega de partido eleito. Para Frederico Bertholini, professor de ciência política da UnB, o episódio reflete uma vitória individual que evidencia falhas de planejamento coletivo. “Para o político, é um resultado pessoal muito legal, mas é uma vitória parcial que indica uma necessidade de planejamento”, pontua.

Em campanha, o próprio parlamentar distrital comentou sobre a dinâmica eleitoral. “Por isso eu não posso abrir mão de nenhum voto”, afirmou aos apoiadores. A votação expressiva de Felix atingiu sozinha o patamar que a Federação PSOL/Rede precisava no total, mas a falta de distribuição impediu a conquista de novas vagas.

O debate sobre federações partidárias Especialistas apontam que uma união com partidos aliados, a exemplo do PT, poderia ter evitado o revés. A alternativa, contudo, foi rejeitada pela sigla em março sob a justificativa de preservar sua independência política.

Projeções matemáticas indicam que a federação ajudaria a legenda a cumprir os requisitos da cláusula de barreira, facilitando inclusive a conquista de cadeiras em São Paulo e no Distrito Federal. Diante do resultado, o PSOL recorreu à Justiça para tentar reverter a situação, a aposta principal reside em uma retotalização de votos no Espírito Santo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), onde a federação ficou a poucos votos do mínimo estadual.

Em nota oficial, a legenda contesta o resultado. “Vamos lutar para provar na Justiça que algumas dezenas de votos não são justificáveis para retirar os direitos de funcionamento de dois dos principais partidos da política brasileira”, diz o PSOL em nota.

Distribuição de recursos e o fator digital O problema na distribuição de votos também encontra raiz nos investimentos de campanha. Em Brasília, Fábio Felix concentrou mais de 90% dos R$ 2,3 milhões recebidos em sua candidatura, enquanto outros nomes da coligação dispuseram de valores bem menores.

O diretor de marketing Fabio Eloi aponta que o fenômeno se repetiu em outras legendas. “Os partidos concentraram os investimentos nesses supostos puxadores de votos, acreditando que os candidatos menos relevantes atingiriam quantidade de votos suficientes para superar o quociente, e isso não se concretizou”, explica.

Em São Paulo, Erika Hilton também criticou a falta de estratégia partidária, apontando que sua votação recorde e a de Sâmia Bomfim poderiam ter garantido nove cadeiras caso houvesse equilíbrio na base.

Além disso, o domínio das plataformas digitais se consolidou como diferencial competitivo. “Quando a gente olha para os candidatos puxadores de voto, essas pessoas são muito presentes nas redes sociais, com público muito bem estabelecido e que dominam a linguagem”, detalha Eloi. Para ele, partidos como o PSOL pecam ao não investir em candidaturas menores, enquanto o PL se beneficia de uma forte capilaridade regional com prefeitos e vereadores atuando como cabos eleitorais.

Fonte: G1 - Política