Mercado financeiro aposta em ajuste fiscal para sustentar alta
O forte otimismo recente do mercado financeiro, marcado pela queda dos juros futuros, pela valorização expressiva da Bolsa e pela baixa do dólar, está diretamente associado à expectativa de reformas fiscais estruturais por parte do próximo presidente.
Impacto nos indicadores econômicos A reação dos investidores ocorreu após sinais de vantagem da oposição no primeiro turno, o que impulsionou aportes estrangeiros bilionários e reduziu a percepção de risco país para o menor patamar desde maio de 2024.
Contudo, especialistas alertam que a manutenção desse cenário favorável depende de ações concretas para conter o avanço da dívida pública, projetada para atingir patamares elevados até o final de 2026.
Divergências sobre o corte de gastos Enquanto planos de governo estudam medidas robustas para equilibrar as contas, o debate político divide opiniões sobre a direção e o impacto social dessas restrições orçamentárias.
“Quando ele fala em cortar R$ 200 bilhões, você sabe do que eles vão cortar? Vão cortar no Pé-de-Meia, no Farmácia Popular, no Minha Casa Minha Vida, Merenda Escolar, no Gás do Povo, não vão dar aumento de salário mínimo para os trabalhadores acima da inflação. E não vão dar aumento de salário mínimo para os aposentados”, declarou.
A busca por superávits Para analistas do setor financeiro, o grande desafio consiste em estruturar um plano coeso capaz de gerar superávits primários sem provocar efeitos recessivos indesejados na economia.
Felipe Salto, economista-chefe e sócio da Warren Investimentos, defende uma abordagem planejada.
“Não se trata de um grande ajuste no primeiro ano, o que seria indesejável, inclusive pelo efeito recessivo, em um momento em que a economia já está em franca desaceleração. O desafio, sim, é apresentar um plano coeso de ajuste, aprovado no Congresso, que permita recuperar o superávit, consistentemente, até o nível em torno de 2% do PIB.”
Salto também aponta prioridades para a contenção de despesas.
“Os supersalários no serviço público, a previdência dos militares e as emendas parlamentares têm de ser os primeiros itens da lista. Mas é preciso que o programa contenha ações para conter, também, o crescimento de gastos obrigatórios […] A meu ver, elas devem combinar responsabilidade social e fiscal, preservando as conquistas da Constituição”.
Riscos de um aperto exagerado Por outro lado, instituições internacionais alertam que um corte drástico nos gastos públicos pode interromper o ritmo da atividade econômica e gerar novos desafios para o país.
“A generosidade fiscal sob Lula tem sido a principal força mantendo o Brasil fora da recessão. Qualquer coisa além de um aperto fiscal simbólico pode afundar a economia em uma recessão”, afirmam o estrategista-chefe Arthur Budaghyan e os analistas Max Malakhveitchouk e Matt Gertken, da BCA Research.
Credibilidade e juros A eficácia das futuras medidas dependerá fundamentalmente da confiança dos agentes econômicos na viabilidade das propostas apresentadas pelo governo eleito.
Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, resume o sentimento do mercado.
“Se o mercado julgar que as propostas podem resolver o problema e são realizáveis, os ativos podem melhorar. Caso contrário, se achar que as propostas não são factíveis, os ativos podem piorar”, afirma.
Paralelamente, especialistas destacam que a revisão de despesas obrigatórias e a previsibilidade das contas públicas são indispensáveis para consolidar uma trajetória duradoura de juros mais baixos e estabilidade financeira.
Diante dos desafios estruturais, Danilo Igliori, economista-chefe da Nomad, reforça a necessidade de um entendimento macroeconômico profundo.
“O que antecedeu o Plano Real, depois de muitas idas e vindas e bastante dor, foi um reconhecimento de que a inflação não era uma questão ideológica. Era um problema que o país precisava endereçar”, afirma.
Fonte: Folha - Mercado