Pular para o conteúdo principal

Caderno Mercado

Canetas emagrecedoras mudam hábitos de consumo nos EUA e desafiam restaurantes

Canetas emagrecedoras mudam hábitos de consumo nos EUA e desafiam restaurantes

Há seis meses, Deborah VanTrece, chef e proprietária do Twisted Soul Cookhouse & Pours, em Atlanta, percebeu que estava ficando sem embalagens para que os clientes levassem as sobras das refeições para casa.

“Não eram apenas algumas garfadas que sobravam. Era metade do prato”, lembrou VanTrece. “Pensei: ‘Será que mudamos o tamanho das nossas porções?’”

O impacto do Ozempic e Wegovy no setor gastronômico

O fenômeno ocorre porque mais clientes estão usando canetas emagrecedoras da classe GLP-1. Estabelecimentos de todos os portes tentam adaptar seus cardápios para atender aos 11% dos adultos americanos, cerca de 30 milhões de pessoas, que utilizam remédios como Wegovy, Ozempic e Zepbound, resultando em menor frequência e gastos reduzidos em refeições fora de casa.

“Sempre perguntamos aos clientes sobre refeições que não foram totalmente consumidas, e eles são muito sinceros ao dizer que é por causa das ‘injeções’”, afirmou VanTrece.

Desafios financeiros e o dilema do tamanho das porções

A expectativa é de alta no uso desses medicamentos. Como os consumidores buscam mais proteínas para preservar a musculatura — já que os GLP-1 podem reduzir a massa muscular —, a solução pareceria simples: adicionar proteínas e diminuir as porções. No entanto, o custo da carne bovina em níveis recordes complica a estratégia.

Adicionar carne encarece os pratos, mas reduzir porções não gera economia proporcional para o cliente, pois os custos fixos dos restaurantes continuam altos.

“Se você servir metade da porção, provavelmente vai cobrar 75% do preço da porção inteira”, disse Darren Tristano, presidente-executivo da Foodservice Results, empresa de pesquisa e consultoria de Chicago. “O consumidor vai pagar um valor proporcionalmente maior por isso.”

A reação das grandes redes de fast-food

Enquanto o mercado se transforma, redes como o McDonald’s adotam cautela. Chris Kempczinski, presidente-executivo da empresa, declarou que a rede ainda não percebeu impactos diretos dos medicamentos, embora testes com saladas e frango grelhado estejam sendo realizados.

“O desafio é garantir que haja demanda suficiente para justificar a inclusão desses itens no cardápio”, disse. “Acho que, em alguns casos no passado, quando fizemos coisas semelhantes, o risco ou o erro foi colocá-las no cardápio antes de haver demanda suficiente.”

Outras marcas já consideram o cenário nos negócios. A Restaurant Brands International, dona do Burger King, classificou os medicamentos como riscos financeiros, enquanto a Shake Shack introduziu opções com foco em proteínas e porções adaptadas.

Estratégias de adaptação e criatividade na cozinha

Para manter a rentabilidade, especialistas sugerem alternativas como o uso de ingredientes mais acessíveis ricos em proteína — ovos, lentilhas e queijo cottage — ou a combinação de carnes nobres com frutos do mar, como o camarão, que oferece melhor custo-benefício.

“Se você tem um restaurante especializado em carnes, em vez de servir um filé-mignon de 225 gramas, combine um filé de 115 gramas com camarões”, afirmou Neil Doherty, chefe global de estratégia culinária da Sysco. “O camarão oferece uma ótima relação custo-benefício neste momento.”

No restaurante Tucci, em Nova York, o proprietário Dennis Turcinovic optou por diminuir porções de pratos específicos, como reduzir de três para um o número de bolinhos de arancini com caviar, ajustando o preço proporcionalmente. Contudo, ele pondera que mudanças drásticas na quantidade geral podem desagradar o restante da clientela.

“Pensei: e se fizéssemos os pratos de massa um pouco menores?”, disse Turcinovic. “Mas, se você cobra mais e entrega menos, acaba parecendo o vilão, quando está apenas tentando manter o negócio funcionando em um dos setores com as margens mais apertadas que existem.”

Fonte: Folha - Mercado