A principal dúvida política deixada pelo primeiro turno deste domingo é entender por que, após a pandemia, conflitos institucionais, tentativas de golpe, prisão de Jair Bolsonaro e diversas controvérsias, cerca de metade dos brasileiros continua optando pelo bolsonarismo.
Duas hipóteses principais explicam o fenômeno Existem duas teorias centrais para decifrar esse cenário. A primeira defende que o bolsonarismo consolidou-se como uma força política independente e sólida. A segunda aponta que o antipetismo segue como um aglutinador fortíssimo de grupos variados sempre que o Partido dos Trabalhadores ou Lula estão no páreo. Os números mais recentes fortalecem a primeira linha de interpretação.
Estabilidade nas urnas e o contexto global Flávio Bolsonaro preservou a base eleitoral do pai e alcançou patamar semelhante ao teto histórico do grupo. Enquanto Jair registrou 46% no primeiro turno de 2018 e 43% em 2022, Flávio chegou a 47%. Essa consistência ao longo de três eleições e oito anos de turbulências indica que a nova direita radical não foi apenas uma ventoinha eleitoral momentânea.
O movimento também se conecta a uma tendência internacional. Assim como nos Estados Unidos e em nações europeias com lideranças como Trump, Le Pen e Meloni, correntes extremas deixaram a periferia para disputar o centro do sistema político.
O papel estratégico do antipetismo Apesar da autonomia dessa vertente, o antipetismo desempenha um papel decisivo na capacidade de agregação de votos. É preciso distinguir a identidade antipetista, que rejeita Lula e o PT, da coordenação antipetista, dinâmica em que eleitores moderados de direita abandonam suas preferências iniciais para apoiar quem tem mais chances de derrotar o petismo.
No último pleito, nomes como Augusto Cury, Caiado, Renan Santos e Zema reuniram apoio relevante nas semanas finais, mas murcharam com a polarização. Cury marcou perto de 3%, Renan e Caiado ficaram pouco acima de 2%, e Zema quase sumiu, enquanto Flávio abocanhou quase metade dos votos válidos.
O desaparecimento da direita tradicional Um diferencial brasileiro em relação a países como Alemanha, França e Holanda é o sumiço da direita tradicional na disputa presidencial. Desde 2018, o bolsonarismo não apenas se expandiu como ocupou todo o espectro oposicionista ao PT.
A permanência da extrema direita como escolha de metade da população ocorre porque o movimento extrapolou a figura de um único líder. O campo estruturou uma identidade própria e absorveu as demais correntes de direita que poderiam surgir fora de sua órbita.
Fonte: Política - Folha




