O Brasil enfrenta um cenário de deterioração institucional sem precedentes na história recente, superando crises passadas. A avaliação é do cientista político Marcus André Melo, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que destaca o impacto de escândalos recentes na estabilidade do país.
Radiografia da crise institucional
Para o especialista, o chamado caso Master evidencia um entrelaçamento inédito entre interesses públicos e privados que atinge diretamente o núcleo do sistema de freios e contrapesos da República. Ao contrário de crises anteriores, o problema atual ultrapassa os limites tradicionais da política partidária.
“Nos escândalos do passado, os ‘suspeitos usuais’ eram setores contratistas de obras e serviços públicos, concessionários, empreiteiras etc. E os protagonistas eram membros dos Poderes Executivo e Legislativo”, pontua o pesquisador.
O peso das eleições de 2026
Além da crise nos órgãos de controle e na cúpula do Judiciário, o pleito presidencial ganha uma relevância extrema devido à possibilidade de o próximo chefe do Executivo indicar até quatro novos ministros para o Supremo Tribunal Federal (STF).
“O fato de que o comando do Supremo tenha se convertido no prêmio maior da disputa política do país sinaliza para o tamanho da disfuncionalidade que tem caracterizado a Corte nos últimos anos. Provavelmente é um evento sem paralelo em qualquer país”, afirma o coautor do livro “Por que a democracia brasileira não morreu?” (Companhia das Letras).
Pressões econômicas e populismo
O cientista político também aborda as contradições da gestão atual, apontando o uso de medidas de apelo eleitoral em meio a um quadro fiscal delicado. Segundo ele, o cenário de limitações no Congresso gera incentivos para estratégias de forte impacto nas contas públicas.
“É muito o que está em jogo, e isto cria incentivos para que o governo recorra a todos os truques do ‘Manual do Populista’. Quem não se lembra do famoso aumento de 100% do salário mínimo por Getúlio Vargas no primeiro de maio de 1954? A rigor, não há contradição: fraqueza e perspectiva de derrota levaram o governo atual ao desespero”, analisa.
Perspectivas para a democracia brasileira
Apesar do diagnóstico severo sobre a captura do Estado por interesses corporativos e políticos, o professor ressalta que pilares fundamentais da sociedade seguem atuantes para garantir a resiliência do sistema democrático nacional.
“Se em 1990 o país estava bêbado, hoje está sequestrado”, conclui.
Fonte: Política - Folha




