Livro conta como montadoras ajudaram a manter ditadura no Brasil

Uma nova publicação traz à tona o envolvimento direto de grandes empresas, incluindo bancos e montadoras, na sustentação do regime militar brasileiro. O papel corporativo na perseguição política já havia sido alvo de investigações anteriores, como o inquérito aberto pelo Ministério Público de São Paulo em 2015, embasado em dados da Comissão Nacional da Verdade. Anos depois, um relatório oficial concluiu que a Volkswagen “contribuiu intensamente com o aparato repressivo” com o aval de sua diretoria. Uma pesquisa contratada pela própria fabricante alemã e conduzida pelo historiador Christopher Kopper, da Universidade de Bielefeld, reforçou essa constatação ao apontar que “a VW do Brasil foi irrestritamente leal ao governo militar e compartilhou os seus objetivos econômicos e de política interna.” O documento do Ministério Público também destacou que “está claro que a Volkswagen estabeleceu por disposição própria uma intensa relação de contribuição com os órgãos da repressão política, muito além dos limites da fábrica. A empresa demonstrou vontade de participar do sistema repressivo, sabendo que submetia seus funcionários a risco de prisões ilegais e tortura”.

O papel das montadoras no ABC Paulista

A montadora alemã, contudo, não atuou sozinha. Lançado recentemente em São Paulo, o livro Repressão Sociedade Anônima, assinado pelos jornalistas Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, mapeia a participação de diversas companhias do setor metalúrgico e financeiro na manutenção do regime. O resultado veio após três anos de cruzamento de documentos e entrevistas, com foco especial nas operações do Grande ABC Paulista. Conforme explicou Reina, “a gente teve informação de muitas empresas, mas focamos em cinco delas: a Mercedes-Benz, a Volkswagen, a General Motors, a Scania e a Ford. Centramos [o trabalho] na região do ABC e nas grandes metalúrgicas”. O financiamento da estrutura repressiva incluía o custeio de munições e equipamentos para estandes de tiro utilizados pelo antigo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Segundo Reina, “elas financiavam com dinheiro a máquina da repressão. E como a coisa foi surgindo? A gente estava analisando os livros de registro de entrada do Dops [Departamento de Ordem Política e Social] aqui no Largo General Osório [na capital paulista] e ali descobrimos uma lista de ramais. Nessa lista tinha um ramal de um estande de tiro. E descobrimos que algumas empresas financiavam equipamentos para esse estande de tiro tais como munições e até compra de protetor auricular. O protetor auricular era a GM quem financiava”.

Infiltração de agentes e listas de demissão

A colaboração corporativa ia muito além do aporte financeiro, manifestando-se também na inserção de informantes no chão de fábrica. De acordo com Maria Angélica Ferrasoli, “os arapongas eram pessoas que se misturavam ali com os trabalhadores e que depois iam dedurar quem estava fazendo reivindicações”. Além disso, a pesquisadora detalhou que “havia um conjunto de ações que as empresas adotavam para reforçar ou firmar essa cumplicidade com a ditadura e ir expulsando os trabalhadores. Por exemplo, se o trabalhador participava de uma greve, ele não precisava nem ser de um partido de oposição ou de combate à ditadura, se ele participava de uma greve, ele já entrava numa lista. Essa lista, que hoje a gente chama de lista suja, era espalhada para várias outras empresas, então ele nunca mais conseguia emprego”.

Condições precárias e o cotidiano das mulheres

O ambiente fabril da época era marcado por descaso generalizado com a segurança e intensa exploração da mão de obra. Dados da época ilustram a gravidade do cenário: em 1975, houve registros diários superiores a cinco mil acidentes de trabalho no país, um índice subnotificado devido ao controle militar sobre os órgãos trabalhistas. As mulheres enfrentavam um cenário ainda mais degradante, sofrendo assédio constante, gritos de superiores e controle rigoroso do tempo de descanso. Conforme relatou Maria Angélica Ferrasoli, o monitoramento chegava ao uso de sanitários: “Elas precisavam pegar uma chave para usar o banheiro. Se demorassem mais do que 3 ou 4 minutos, já tinha gente batendo na porta. Em outras empresas, o papel higiênico ficava em cima da mesa do chefe. Ela tinha que ir lá e pegar uma cota [de papel]. Então, se acabava o rolinho dali, elas tinham que se virar no banheiro, levar de casa ou fazer o que fosse possível”.

O Dopinho do ABC e a atuação clandestina

Outra descoberta relevante dos autores foi a existência de uma filial clandestina do DOPS em São Bernardo do Campo, operada em sintonia com o polo industrial local. Conforme apontado na obra, o local funcionava como um centro de coerção. Para Eduardo Reina, “a gente descobriu a existência de uma filial do DOPS no ABC que ficava a três ou quatro quadras distante da sede do sindicato. Lá, as pessoas eram presas e torturadas. Para lá iam presos os trabalhadores, pessoas ligadas aos movimentos eclesiais de base ou de movimentos de melhoria nos bairros. A gente conta a história, inclusive, de um menor de idade que foi preso e torturado ali”. Embora os pesquisadores avaliem que o regime teria sobrevivido sem o apoio privado, a participação corporativa garantiu maior estabilidade à ditadura. Para Ferrasoli, “eu acredito que a ditadura sobreviveria [sem a participação empresarial]. Mas ela sobreviveu de uma forma muito mais escalonada com a participação dessas empresas”.

Ao concluir o levantamento, os autores ressaltam que o passado ainda reverbera nas estruturas de segurança atuais e que a história oficial carece de revisões profundas. Reina enfatiza que “a história da ditadura no Brasil tem milhares de coisas que precisam ser contadas. Muitas coisas foram enterradas e muita coisa desapareceu. Muitos arquivos militares foram destruídos. Mas a gente precisa ter um outro olhar para toda essa documentação e avançarmos com isso para mostrar todas essas coisas que aconteceram e continuam acontecendo. Se a gente fizer um paralelo, a polícia militar age do mesmo modo hoje como agia na ditadura. Se formos para a periferia, então, os pretos e os pobres são as maiores vítimas dessa ditadura hoje, como eram também na época da ditadura. E isso ninguém contou até hoje”. Procuradas pela imprensa, as montadoras citadas adotaram diferentes posturas: a Volkswagen destacou a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC); a Scania repudiou violações de direitos humanos e alegou falta de arquivos da época; a Mercedes-Benz afirmou não ter encontrado evidências de apoio ao regime; a General Motors negou qualquer envolvimento com ações repressivas; e a Ford optou por não se manifestar.

Fonte: Agencia Brasil

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