QUATRO ANOS SEM LUIZ ANTÔNIO BARRETO: HOMENAGEM À SUA MEMÓRIA (Parte 1)


LuisAntonioBarretoDILSON M. BARRETO
ECONOMISTA

Neste domingo que passou, 17 de abril, completaram quatro anos do falecimento do amigo muito querido, Luiz Antônio Barreto. Se vivo estivesse entre nós, estaria, como sempre, nos alegrando com as suas agradáveis conversas sobre política, literatura, história, expressando sempre os seus sonhos para o futuro, os seus contatos com pessoas de renomada projeção intelectual, as suas piadas sobre o cotidiano, reunindo em torno de si os seus amigos seja no cafezinho do Shopping, seja na livraria Escariz.  Luiz era sempre uma casa cheia. Com a vaidade que lhe era peculiar, encantava a todos pelo seu saber enciclopédico. Era um verdadeiro amigo dos seus amigos tanto nas épocas das vacas gordas como de vacas magras a que foi impulsionado em sua trajetória. Porém nunca desistiu ou se deixou vencer pelo pessimismo, não obstante, no final de sua vida terrena, algumas mágoas carregassem no seu bondoso coração. Luiz era um ser humano do bem. Íntegro, leal, sincero, honesto a toda prova. Era engrandecedor desfrutar da sua amizade.

Este pequeno artigo tem como finalidade, sem intenção de seguir uma ordem cronológica, recordar momentos agradáveis que deixaram marcas profundas em minha memória, fruto justamente da feliz convivência com Luiz Antônio Barreto, iniciada, salvo engano, no Conselho do Desenvolvimento de Sergipe (CONDESE) onde exerceu o cargo de Técnico em Pesquisa. Era uma pessoa irrequieta, sempre em busca do saber, enveredando-se pelos livros e revistas na Biblioteca do órgão, fazendo suas anotações, discutindo com os colegas suas opiniões. Naquela época era apenas um conhecimento formal com pouca proximidade. Daí que devo começar este relato forçando a memória para situar-me nos idos de 1976, no Governo do Dr. José Rollemberg Leite, época em que Luiz Antônio exerceu o cargo de Assessor Cultural da Secretaria de Estado da Educação, na gestão Everaldo Aragão Prado. Segundo contou-me recentemente o Professor e amigo Jorge Carvalho, foi uma epopeia para que essa nomeação viesse a acontecer, pois Dr. José o queria num cargo mais elevado, barrado, contudo pelos membros do estamento militar. Insistindo na nomeação face a importância intelectual da pessoa a ser nomeada, o Governador enfrentou os militares e, sem retroceder em suas intenções, criou o cargo de Assessor Cultural especialmente para Luiz Antônio. Sob seu comando neste novo cargo, a Secretaria publicou as obras completas de Tobias Barreto (a que Luiz tinha uma devoção toda especial) e de outros historiadores como Sílvio Romero e José Calazans, brindando o meio cultural sergipano com a profundidade do conhecimento jurídico e filosófico de insignes escritores.

Da mesma forma, no mesmo período, em função da sua paixão pelo folclore de cujas discussões também participava Jackson Silva Lima, amigo sempre presente na vida de Luiz, destacado intelectual e muito respeitado nas rodas da cultura, muito contribuiu para a realização do Primeiro Encontro sobre o Folclore na Cidade de Laranjeiras, e também juntos, idealizaram o Encontro Cultural de Laranjeiras, que ainda hoje se realiza anualmente. Era uma amizade muito forte, ao ponto do nosso homenageado frequentar constantemente a residência desse grande historiador sergipano, alimentando em suas conversas os sonhos, as esperanças e a construção de novos projetos voltados sempre para a cultura. Sim, acho que foi a partir de 1976 que se estreitou nosso conhecimento recíproco, selando uma amizade que perdurou até a sua morte prematura. Mesmo que em algumas épocas os contatos fossem esparsos, pouco importa: a amizade e o respeito profissional de um ao outro, o afeto no trato, selaram a amizade construída. Sim, porque para que se permita dizer que alguém é seu amigo de verdade, não precisa viver permanentemente entrelaçado. Mesmo que a distância decorrente dos afazeres profissionais ocorresse em algum período do tempo, todavia a profundidade do verdadeiro sentimento de amizade encurtava a distância. Quando isto acontecia, contentava-me em acompanhar seus feitos e vibrar com sua trajetória intelectual, suas viagens mundo afora.

Quando da gestão do Dr. Heráclito Rollemberg na Prefeitura Municipal de Aracaju, Luiz Antônio era Secretário de Educação e Cultura. O seu trabalho meritório à frente daquela pasta, a sua preocupação constante com uma educação de qualidade, o seu projeto inovador nessa área, a forma como vibrava ao tratar da matéria e dos seus importantes projetos, davam a marca do seu idealismo. Lembro-me bem da implantação do Projeto “Educação Itinerante”, servindo-se para este fim de vagões adquiridos à Rede Ferroviária Federal e da instalação da primeira unidade em uma região extremamente pobre denominada Aloques, onde as crianças não tinham acesso à educação. Levou-me para visitar o projeto, explicando detalhadamente sua metodologia, que associava o ensino à alimentação escolar e ao lazer das crianças. Mais à frente, levou-me também para visitar o vagão-biblioteca que instalara no Parque Theófilo Dantas, também para crianças iniciantes do primeiro grau escolar. Que felicidade para elas a grande novidade! Os olhos de Luiz brilhavam de satisfação e um sorriso vaidoso estampava em seu rosto, revelando sua plena realização estar servindo às camadas mais pobres da população aracajuana e carentes do saber escolar. Ao mesmo tempo em que as crianças em buliçosa algazarra se sentiam viajando em um trem de verdade, viam ao seu redor centenas de livros infantis com estorinhas que alegravam o coração e enchiam de sonhos suas mentes em formação. Cercando-se de profissionais do mais elevado gabarito, Luiz sonhava em dotar o município de Aracaju de um ensino de qualidade, permitindo às famílias pobres uma oportunidade para educarem seus filhos, resgatando assim sua dignidade de ser humano, transformando-os em verdadeiros cidadãos. O interesse por esse trabalho também demonstrado pelo seu parceiro o Professor Jorge Carvalho, seu amigo muito querido e de uma lealdade a toda prova, permitia consolidar a certeza do sucesso. Tudo isto fazia-o vibrar de emoção, desde quando, cercado por profissionais competentes, tinha a plena certeza de que seu grande sonho transformar-se-ia em realidade. E isto o enchia de vaidade. Não a vaidade dos medíocres, dos pobres de espírito que se enaltecem com o poder e a ele se apegam. Luiz Antônio irradiava uma vaidade lúcida que lhe enchia o espírito por realizar um trabalho para o outro, objeto maior da sua trajetória aqui na terra. E que trabalho: proporcionar oportunidades novas para que essa parcela sempre marginalizada da população tivesse condições de também, através do saber, ascender socialmente. Como era agradável ouvir Luiz Antônio falar dos seus projetos, do seu propósito de fazer o melhor por Aracaju, no campo da educação e da cultura. Foi uma pena ver os vagões desaparecerem dos locais onde estavam instalados, apagando uma história que havia sido construída com tanta dedicação. O tempo, porém, jamais apaga as ideias e os seus construtores.

Recordo-me de Luiz cercado de livros e de um amontoado de papéis em sua mesa de trabalho, inicialmente na “Pesquise”, embrião do que seria mais tarde o “Instituto Tobias Barreto” por ele fundado e dirigido, agora num imóvel localizado na Avenida Ivo do Prado, com amplo espaço para acolher esse volume incalculável de material bibliográfico. Pesquisador incansável sobre a história de Sergipe e de seus vultos de maior destaque na vida econômica, política e cultural, organizou e administrou com coragem um grande acervo tanto em livros, fotografias e outros documentos históricos, abrindo, a partir daí a oportunidade para que estudantes dos cursos médios e universitários coletassem suas informações e produzissem seus trabalhos escolares e acadêmicos. O preço pelo fornecimento das informações? O prazer de servir e ver materializado o seu esforço de pesquisador. Este era o verdadeiro perfil de Luiz Antônio Barreto e esta apenas uma parte da sua história.

 

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