Os efeitos da crise política sobre a economia brasileira


Dilson M. Barreto
Economista

Até dois meses atrás, as apostas que uma determinada instituição financeira fazia para o Brasil relacionadas com o ano de 2017 eram de que a taxa de desemprego chegaria ao final do ano com um volume de desempregados de 12,8% da população economicamente ativa e uma taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 0,7%. A realidade atual aponta para um crescimento não superior a 0,4% e uma taxa de desemprego da ordem de 13,7%, equivalente a um total de 14,0 milhões de trabalhadores desempregados. Com toda certeza, face à desordem política que o país está enfrentando e aos números acima apresentados, novas projeções deverão indicar números menos favoráveis para estes dois indicadores, isto porque, segundo recente análise do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da Fundação Getúlio Vargas, “a drástica mudança no ambiente político gerado pelos eventos divulgados, adicionou um elevado grau de incerteza às perspectivas econômicas, com impacto imprevisível sobre o nível de atividade econômica”.

Realmente, a crise política que o Brasil vem amargando há algum tempo em decorrência das várias denúncias de corrupção envolvendo os diversos partidos, com notoriedade para os mais representativos em escala de valores (PSDB, PT e PMDB), tem conturbado de forma alarmante os ânimos da sociedade quanto à crença nos valores éticos dos nossos representantes no Congresso Nacional, afetando inclusive a condução tanto das Reformas Econômicas, como também as tentativas do governo de tirar o país da recessão. As mais recentes manifestações de cunho oposicionista, não tiveram como bandeira a apresentação de caminhos alternativos para o que poderíamos chamar de “medidas de salvação nacional” e sim para deturpação desse caminho da maneira mais agressiva possível sob a roupagem político-ideológica do “quanto pior melhor”, talvez na tentativa não apenas de desestabilizar ainda mais o país, bem assim de não permitir que a saída da crise por “agentes da direita reacionária” venha obscurecer, aos olhos da população, os êxitos da gestão petista.

Por outro lado esta crise política que se pensava seria amortecida com a aprovação das reformas trabalhista e da previdência, dando impulso à retomada do crescimento econômico, é agora agravada em alto grau a partir da hecatombe registrada no dia 17 de maio e da entrevista irresponsável do senhor Joesley Batista à Revista Época envolvendo em cheio o senhor Presidente da República que, além da baixa popularidade que se arrasta em torno de 8%, agora perde também credibilidade, alimentando dúvidas sobre o seu comportamento ético e criando grande confusão e incerteza no cenário político, não se podendo avaliar como será o dia de amanhã. Em minha modesta opinião, Joesley Batista não é nada mais nada menos do que um teleguiado que foi intencionalmente lançado para explodir não apenas o Presidente, como também toda a República.

O mal que o dono da JBS que fez fortuna à sombra do dinheiro dos bancos públicos está causando ao Brasil gerando uma crise institucional sem precedentes na nossa história, é algo inusitado e, o pior, sob a proteção da Procuradoria Geral da República que, através de um acordo de leniência duvidoso, o mantém livre para fazer as mais estapafúrdias denúncias indo em direção contrária ao rigor que vem sendo adotado pelos operadores da “Lava Jato”. Sem que nenhuma autoridade lhe dê voz de prisão, pode o senhor Joesley, folgadamente, após cada bomba incendiária por ele vomitada, refugiar-se cinicamente nos Estados Unidos enviando bananas cordiais para o povo brasileiro. Enquanto isso, Marcelo Odebrecht além de ver a derrocada de suas empresas, amarga no cárcere da Polícia Federal de Curitiba dois anos de prisão sem direito às benesses que aquele malfeitor vem obtendo graciosamente. Se o “benefício” a ele concedido for estendido e pelas mesmas razões, a outros marginais do mesmo quilate, vale a pena ser bandido de colarinho branco no Brasil. Basta que tenha salvo-conduto para fixar residência no exterior.

Esta hecatombe, com certeza, além de postergar a aprovação das reformas Trabalhista e da Previdência já em tramitação no Congresso, terá agora um custo muito elevado para o país, desde quando, como já vem sendo noticiado, as torneiras do Orçamento Federal e do BNDES já começaram a ser abertas para parlamentares e governadores não apenas com vistas à aprovação das mesmas, bem assim em troca de apoio contra um possível afastamento do Presidente da República. Não sei até onde haverá força política do por parte de Michel Temer para se manter no poder caso novas revelações venham surgir manchando ainda mais sua reputação, como também sua capacidade de convencimento para evitar o racha completo de sua base aliada. Colocando mais lenha na fogueira, por razões não muito claras, o próprio ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso e presidente de honra do PSDB declara-se favorável à realização de eleições diretas, enquanto o Governador de São Paulo ameaça o racha com a informação de que a crise presidencial será avaliada diariamente para uma posterior decisão se sai ou fica.

Talvez, até o final deste primeiro semestre ou no final de julho quando termina o recesso parlamentar, seja possível avaliar o grau de estrago provocado na economia, além do próprio destino do Presidente da República. A derrota do Governo na terça-feira na Comissão de Assuntos Sociais do Senado rejeitando o texto da reforma trabalhista fez com que o dólar sofresse forte desvalorização e a Bolsa de Valores reagisse em queda, porém já na quarta-feira a moeda brasileira manteve-se praticamente estável, deixando em alerta os agentes de mercado face a esta primeira sinalização da perda de força política de Temer. Na realidade, após este incidente de percurso e das justificativas do Ministro da Fazenda considerando a derrota “um episódio corriqueiro”, acredito, entretanto, que tudo vai depender de três situações consideradas decisivas:

1. A posição efetiva do grupo político que compõe a base aliada que dá sustentação ao Governo no Congresso Nacional;

2. A permanência da credibilidade da equipe que gerencia a política econômica e seu poder de fogo para manter a confiança dos investidores;

3. Caso a saída do Presidente da República seja concretizada, uma mudança da atual equipe econômica poderá aumentar o grau de instabilidade, com um possível retorno da recessão, aumento da taxa de juros e da inflação.

Uma coisa é certa com toda essa confusão: a instabilidade política agravada em decorrência das denúncias contra o Presidente da República acentuou as dúvidas quanto ao futuro e tende a tornar o processo de recuperação da economia mais temerário, isto porque não se pode confiar numa classe política desvestida de moral em véspera de eleições.

 

 

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