Os 100 anos de Seixas Dória


Marcos Cardoso
Jornalista

O ex-governador Seixas Dória, vivo fosse, faria 100 anos no dia 23 de fevereiro de 2017. Esse herói sergipano nascido em Propriá e que quase deu a vida na defesa dos seus ideais de liberdade e justiça, faleceu há cinco anos, em 31 de janeiro de 2012.

A homenageada coluna política “Painel” da Folha de S.Paulo quase dez anos atrás cometeu uma “barrigada” jornalística e uma ofensa histórica aos sergipanos quando noticiou que, após a morte de Miguel Arraes, o então prefeito de São Paulo, José Serra, teria passado a ser o único sobrevivente entre os oradores do histórico comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964. Um e-mail foi enviado ao “jornal a serviço do Brasil”, esclarecendo que o ex-governador João de Seixas Dória estava vivíssimo, do alto do seu pouco mais de metro e meio de altura e 88 anos e meio de memória, a lembrar que foi um dos principais oradores daquela noite de sexta-feira, dia que definiu a queda de João Goulart e que desencadeou o golpe militar. Mas eles não se deram ao trabalho de publicar nem um “erramos”. Autocentrado, o paulista vive às voltas com os mistérios do próprio umbigo.

José Serra estava lá, tinha 21 anos, era presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e foi o segundo orador da noite. Discurso frio, de principiante. Além, de Jango, os oradores mais aguardados pela multidão de 200 mil pessoas que se espremia na Praça da República, centro carioca, eram mesmo o ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, o governador de Pernambuco, Miguel Arraes, e Seixas Dória. Este colunista abre um parêntese para fazer uma inconfidência. Em conversa com o ex-governador sergipano, ele transmitiu uma opinião e pediu que não fosse publicada, era informação em off: “Eu acho que fui o mais aplaudido”. Quem há de duvidar? O talento de Seixas Dória para discursar era reconhecido.

Ibarê Dantas (História de Sergipe República: 1889-2000) recorda que, quando Seixas Dória discursava, não perdia oportunidade de exercitar sua retórica, que se apresentava “mais incandescente” nos discursos proferidos fora do Estado. “Seu pronunciamento de maior repercussão foi no famoso comício de 13 de março, no Rio de Janeiro, quando anunciou bombasticamente que, ao retornar a Sergipe, iria fazer a reforma agrária”, conta o historiador. O comício resultou na cassação dos mandatos dele e de Miguel Arraes. Os ex-governadores que defendiam as Reformas de Base foram obrigados a conviver por longos quatro meses no degredo em Fernando de Noronha.

Arraes foi preso já no dia 1º e enviado imediatamente ao arquipélago. Seixas, na madrugada do dia 2 de abril, sendo encaminhado primeiro ao 29º Batalhão de Caçadores, em Salvador, onde passou sete dias. Da prisão na capital baiana, enviou carta ao presidente empossado, Humberto de Alencar Castello Branco, desafiando-o a apontar o crime pelo qual estava pagando. Não obteve resposta, claro. Ali mesmo, o Exército lhe ofereceu a possibilidade de retornar ao governo de Sergipe, desde que assinasse um manifesto de apoio ao novo regime, como fizeram alguns governadores para se garantirem nos cargos. Seixas negou-se a assinar: como olharia para a mulher, os filhos e os amigos depois? Foi embarcado também para Fernando de Noronha.

“Miguel Arraes falava pouco, mas tinha opiniões muito sábias”, disse o ex-governador de Sergipe, acrescentando que guardava as melhores recordações do colega cearense que se tornou líder socialista e governador de Pernambuco por três mandatos, morto no dia 13 de agosto de 2005, também aos 88 anos. “Foi um homem singular, que gostava de rapadura e que queria que eu também comesse. Mas eu não gosto de rapadura”, afirmou Seixas Dória, revelando que, indiretamente, evitou que ambos fossem assassinados.

“Uma vez, Arraes propôs que nós fugíssemos. No nosso quarto, havia um buraco no chão coberto por uma tampa que nós poderíamos retirar e escapar por ali. Eu fiquei receoso e ponderei: ‘Como nós vamos sair da ilha? O continente é distante e acontece que eu não sei nadar!’ Depois, nós íamos dar razão para que nos matassem. Aí eu o convenci do contrário.”

Arraes e Seixas liam muito na prisão, inclusive os jornais Última Hora e Correio da Manhã, que eram contra o regime, mas que chegavam às suas mãos graças à simpatia do coronel que governava o arquipélago. “Era um homem civilizado, que nos tratava com respeito”, acrescentou. Ali, ele começou a escrever os depoimentos que acabaram resultando no livro Eu, réu sem crime, um libelo contra a opressão, publicado graças à interferência do amigo jornalista e conterrâneo Joel Silveira e o apoio do jornal Correio da Manhã. O livro tornou-se best-seller e vendeu mais de 5 mil exemplares na noite de autógrafo, segundo cálculo do autor, lembrando, humildemente, que o número é contestado. Rubem Braga escreveu, surpreendido, que a noite de autógrafos da Livraria Entrelivros, no Edifício Avenida Central, resultou na venda de 2.432 exemplares.

“Espero que os rapazes do DOPS e os do SNI, que certamente estavam por lá, tenham informado corretamente o coronel Borges e o general Golbery: toda essa gente, na maioria humilde, fazia questão de mostrar que estava solidária com o homem que foi arrancado do governo e preso durante meses injustamente. E que a gente do governo sinta que a homenagem não era apenas à pessoa de Seixas Dória: era a todos os que são demitidos, humilhados, presos e torturados. Sinta que o povo brasileiro não aprova esses processos de opressão”, disse o maior dos cronistas, em texto publicado no Jornal do Brasil no dia 29 de dezembro de 1964.

Seixas Dória lembra que o momento de maior aflição para ele e sua família aconteceu pouco antes de ser libertado. “Um dia, em Fernando de Noronha, eu fui raptado por um grupo radical do Exército e levado de volta à Bahia”. Nem ele e nem sua família sabiam onde se encontrava. Havia rumores de que estava desaparecido. “Não fui morto porque se levantou um clamor da imprensa e de alguns políticos cobrando uma explicação para o meu desaparecimento”. Então mandaram o general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar do governo Castello Branco, para mostrar à família e à sociedade que ele estava vivo. “O general me perguntou se eu estava sendo maltratado no 19º BC. Eu respondi que dependia da interpretação que se quisesse dar. Eu comia a mesma comida dos oficiais, portanto, nesse sentido não era maltratado. Mas convivia diariamente com os gritos de dor dos torturados”.

No final do mês de março de 2004, quando a Fundação Joaquim Nabuco, do Recife, promoveu um evento para debater os 40 anos do golpe militar, Seixas Dória e Miguel Arraes participaram como conferencistas. Ali, o ex-governador sergipano definiu o movimento como uma “revolta” e não uma revolução, como denominavam os conspiradores. “Revolta é saque, é sangue, é desordem, é violência, é quartelada. Revolução é quebra de estruturas arcaicas”, comparou. E aproveitou para denunciar o descaso histórico dos governos nacionais com o Nordeste. Descaso que está na divisão inconsciente que há entre o Brasil do sul e o Brasil do norte e que se repete agora, quando o maior jornal do país esquece de um herói sergipano, um herói nacional.

No dia do lançamento de Eu, réu sem crime, 22 de dezembro de 1964, Joel Silveira escreveu assim no Correio da Manhã: “João de Seixas Dória, (…) 1,56 de altura, 58 de peso, gestos inquietos, palavra fácil, humilde e teimoso ao mesmo tempo — um ‘carne de pescoço’. (…) Quando Sergipe acerta, é assim. Acertou com Tobias, com Sílvio, com João Ribeiro. No caso de Seixas Dória, estava acertando como governador, que em catorze meses de governo modificou radicalmente a fisionomia oligárquica e semifeudal do Estado; e acertou em cheio com o prisioneiro”.

Anterior Cesta básica sobe em todas as capitais do país no mês de abril
Próximo Envelhecimento da população brasileira: um problema para a previdência social

Não há comentário

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *