O Desprezo pela Ciência e Tecnologia


Dilson M. Barreto
Economista

Fazem alguns meses que escrevi dois artigos tratando sobre o desprezo com que o Governador do Estado tratou o Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe, exonerando um Diretor que possuía doutorado e era especialista na área, para colocar em seu lugar um cidadão comum, sem qualquer competência técnica para gerir a referida instituição, apenas para atender ao pleito político de um Deputado Federal, em troca de votos futuros. A denúncia caiu no vazio e Sua Excelência preferiu fingir-se de surdo.

Recentemente, numa prova ousada e equivocada de aversão à ciência e a tecnologia, o nosso governante recorre à mesma prática anterior e exonera o dirigente da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação  Tecnológica do Estado de Sergipe (Fapitec) para, em seu lugar, nomear um cidadão sem qualquer preparo intelectual e conhecimento científico indispensáveis ao cargo, simplesmente objetivando contemplar supostos acordos políticos que nada agregarão quando se pensa em promover o progresso de uma sociedade que, por medidas inconsequentes dessa natureza, vê-se arriscada a regredir.  O professor Ricardo Santana é um profissional respeitado no meio científico e também com doutorado e experiência comprovada nessa área tão complexa, além de gozar de trâmite fácil nos mais diversos organismos voltados à ciência e à tecnologia.

Com um trabalho plenamente reconhecido pelos diversos Institutos de Pesquisa e organizações afins, Ricardo, ao longo da sua jornada à frente da Fapitec, vinha contribuindo inclusive para difundir junto a vários segmentos da atividade econômica sergipana, experiências inovadoras que certamente os beneficiariam no médio prazo, além de difundir uma nova cultura sobre a importância da introdução desses instrumentos tecnológicos como sinônimo de progresso. Num trabalho de formiga, procurava insistentemente quebrar resistências no seio empresarial e mesmo junto a determinados órgãos públicos, evidenciando os benefícios que seriam obtidos com a adesão dos novos métodos que a Fundação vinha divulgando.

Mais uma vez erra o Senhor Governador, e erra propositadamente, ao tomar a decisão de exonerar toda a diretoria da Fapitec, dando um atestado para a comunidade científica e para todos aqueles que acreditavam numa política de governo voltada para o progresso e bem estar da população sergipana, de que o importante para ele não é o desenvolvimento econômico e social do Estado de Sergipe e sim o fatiamento da estrutura do Estado com o objetivo tão somente eleitoral. Não é o futuro de Sergipe que o interessa, mas sim seu futuro e dos partidos a ele aliados, de olho apenas nas eleições de 2016 e de 2018. Daí a mudança de toda a diretoria por pessoas totalmente desvinculadas com a finalidade do órgão de pesquisa e descompromissadas com os trabalhos pelo mesmo realizados. Diga-se a mesma coisa do Deputado Federal que patrocinou as citadas indicações e que resultaram nas respectivas mudanças, de olho apenas nas próximas eleições. Se o eleitor sergipano tiver consciência política, e sentimento de amor pelo seu Estado, não perdoará tais insânias.

Nada tenho, com relação à pessoa do nomeado (nem o conheço, sabendo apenas que se trata de um ex-vereador do município de Neópolis), todavia, ele não é a pessoa capacitada para exercer o cargo que recebeu como prêmio. A Fapitec é uma instituição voltada especialmente para o desenvolvimento da pesquisa científica e o apoio a entidades públicas e privadas tendo como objetivo maior melhorar o desempenho de suas atividades, elevando a produtividade em termos de gestão e produção de bens e serviços. O linguajar especializado não é alcançado nem minimamente pelos novos dirigentes, incorrendo em sérias dificuldades para servirem de interlocutores no trato com a comunidade científica existente nas universidades e na diversas instituições de pesquisa.

Órgãos dessa natureza não podem estar vinculados a partidos políticos isto porque o trabalho que realizam está num ambiente muito superior aos ditames dessa política rasteira e medíocre que vem sendo colocada em prática não apenas em Sergipe, mas também no País. O desenvolvimento científico e tecnológico é um campo onde seus integrantes, por estarem voltados estritamente a essa complexa atividade que lhes roubam todo o seu tempo útil, ficam impedidos de pensar em qualquer outra coisa, especialmente em política. Tornam-se na realidade apolíticos, e o seu mundo gira tão somente na realização de suas pesquisas e estudos científicos. A Fapitec estava centrada nesse contexto, daí o seu reconhecimento no meio acadêmico e seu prestígio em termos nacionais.

Se o governador deseja, na sua ânsia de conciliar seus particulares interesses políticos, atender aos conchavos eleitoreiros firmados com lideranças que pouco compromisso têm para com o futuro do nosso Estado e de sua população,  seria menos prejudicial a criação de algumas “secretarias especiais para assuntos do nada” e para elas nomeasse tais apaniguados que, mesmo possuindo votos, estariam isentos de prejudicar a realização de uma política de desenvolvimento científico e tecnológico direcionada à promoção do progresso de Sergipe, equivalente a que vinha até agora sendo realizada. Mesmo onerando o orçamento estadual já bastante comprometido com as mais diversas despesas, muitas das quais irrelevantes, esta iniciativa seria muito mais benéfica para os fins pretendidos do que o custo social que a atual medida certamente irá proporcionar quando se pensa no futuro de uma sociedade em construção.

Mesmo com todos os protestos já realizados por diversas instituições da sociedade civil sergipana, Sua Excelência continuará fazendo-se de surdo, isto porque o seu horizonte político não coincide com qualquer desses arrazoados interpostos pelos agentes reclamantes. Daí que é provável que novas iniciativas desta natureza venham ocorrer nos próximos meses ou até 2018, voltadas única e exclusivamente para a obtenção do seu sucesso eleitoral e do seu grupo político. Desfaz-se assim as esperanças que tínhamos, em função do seu espírito arrojado e progressista, na realização de um governo totalmente independente e compromissado com a promoção do desenvolvimento econômico e social de Sergipe. Constato que este pensamento não foi mais do que um sonho numa noite de verão.

 

 

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