“Há oportunidades na crise”, diz Renato Santos, consultor internacional e coautor do Empretec


Como reagir à crise do Coronavírus? É hora de fazer empréstimos? Minha empresa está fechada, o que devo fazer antes de reabri-la? Essas e outras questões são dúvidas recorrentes dos donos de pequenas e médias empresas de todo país. Pensando nisso, o Sebrae entrevistou o administrador e coautor do Empretec, Renato Santos, para abordar a importância do comportamento empreendedor na atual crise. O empresário, palestrante e consultor internacional analisou o cenário e deu dicas práticas para os empreendedores reagirem.

 Confira a entrevista completa:

SebraeQual é a importância da capacidade de adaptação do empreendedor durante a crise?

Renato Santos– Antes de mais nada, é importante falar sobre o conceito de empreendedorismo. Pesquisas no século passado observaram empresários com culturas e origens diferentes, em diversas áreas de atuação. A partir disso, foi possível isolar características em comum entre eles, tais como capacidade de liderança, perseverança, iniciativa, planejamento, entre outras. Estudos recentes mostram e confirmam que quem desenvolve essas características tem resultados capitalistas superiores. A capacidade de se adaptar, portanto, de transformar o negócio que você possui para atender às diferentes crises é um dos principais pilares do comportamento empreendedor.

SebraeO que fazer com os impactos do Coronavírus?

RS – Vale observar as multifacetas da situação, é um momento totalmente atípico. Citando o setor de alimentação, que está com várias limitações, muitas nunca vistas nem em situações de guerra. O fato de você ter o valor das despesas mantidos e os serviços que proporcionam as receitas limitadas impõe ao empreendedor o desafio de se readaptar. Há setores totalmente paralisados, por exemplo, o de entretenimento e turismo. Pensar na reação a essa situação é fundamental, a grande questão é encontrar oportunidade na crise. Por outro lado, pesquisa recente do Sebrae apontou que pelo menos 400 mil empresas estão reagindo e crescendo com a crise.

O empreendedor precisa pensar no antes, no durante e no pós-crise. O que a sua empresa pode oferecer de novo? Se a partir de hoje sua empresa fosse obrigada a viver somente no ambiente online, seria possível? Como? São perguntas que podem abrir os horizontes. Se preparar para o terceiro momento, que é olhar para o cenário pós-crise também é um desafio que pode trazer oportunidades. É hora de pensar em novos canais de vendas e novas formas de reduzir gastos. É importante ter um olho no presente e outro no futuro. Outro ponto fundamental é estar presente no ambiente online: por menor que seja sua empresa, se você não tem um site, busque opções de vendas colaborativas. Redes sociais e contato com cliente no ambiente virtual também é essencial para manter a saúde da empresa.

Sebrae – Como o empreendedor que não sabe o que fazer pode ter uma visão macro da crise?

RS- Todos estão enfrentando o mesmo desafio, que é a redução de vendas no varejo, indústria, artesãos. Essa realidade é tão chocante que empresas estão fechando as portas, devolvendo pontos comerciais e tomando medidas drásticas. Por isso, observar o caixa da empresa é essencial. Fizemos um levantamento com os empreendedores que cursaram o Empretec para saber quais providências eles tomaram. Alguns suspenderam contratos de trabalho e ainda assim mantiveram um ritmo de reuniões e contatos semanais com os colaboradores, para que no pós-crise a motivação e comprometimento com a empresa sejam mantidos.

 Há aqueles que inovaram na forma de negociar com fornecedores de modo que pagamentos sejam adiados, negociados juros e multas. Um conselho geral de como reagir à fase inicial dessa crise é: imagine o pior cenário possível. Tudo isso para que mantenha a liquidez da empresa. Tome as providencias necessárias para que seu caixa não fique zerado. Caso isso aconteça, procure empréstimos, financiamentos com juros e condições facilitadas. Não sabemos quando o movimento voltará ao normal, por isso é importante manter dinheiro em caixa. É hora de exercitar características de empreendedorismo, como capacidade de negociação, tomada de decisões, persistência para negociar, bater em portas e ser resiliente.

SebraeComo identificar oportunidades em um cenário de crise?

RS – Recebi em grupos de Whatsapp confecções que produzem máscaras e luvas com estampas de times de futebol. A divulgação vem acompanhada de brincadeiras das torcidas. Isso mostra a capacidade de adaptação das pequenas empresas. Outro exemplo vem de um dos maiores shoppings de Brasília, relativamente distante das áreas residenciais, sendo que os restaurantes se prejudicam pela distância no delivery da comida. Um desses empresários teve a ideia de alugar a cozinha de um bar mais próximo das casas e continua vendendo a comida em todos os aplicativos. Há ainda aqueles negócios que reportaram suas formas de vendas para o modelo online e conseguiram obter lucro. O escritório de contabilidade de um colega reduziu o número de salas alugadas e manteve o funcionamento com home office. No pós-crise ele não pretende retornar com gastos de aluguel.

Sebrae – Por onde posso começar a desenvolver meu comportamento empreendedor?

RS – Essa pergunta é ótima, vou acrescentar um agravante que é o momento que estamos vivendo. Agora não é hora de iniciar negócios que não tenha estudado antes. O que pode e deve fazer é usar a internet ao seu favor para buscar informações sobre inovações, usar essa comoção global em torno da Covid-19 para absorver conhecimento. Buscar informações sobre cursos, treinamentos, histórias sobre o mercado em que você pretende atuar, relatórios, reportagens, entre outros documentos disponíveis na rede. O site do Sebrae é um exemplo de plataforma gratuita com muito conteúdo para desenvolver o espírito empreendedor. Independente do seu negócio, o que vai ajudar a lidar melhor com a situação é a inteligência emocional.

SebraeO que as empresas que estão fechadas devem observar ao reabrir o seu negócio?

RS – Vejo muitas empresas pecando nos relacionamentos com colaboradores, clientes e fornecedores. Por mais que estejamos passando por um momento insalubre, é importante não desequilibrar as relações. Quem simplesmente demitiu funcionários, suspendeu pagamentos de fornecedores, sem ter uma boa conversa para um ajudar o outro, vai ter dificuldade de retomar o crescimento no pós-crise. Mais para frente, centenas de empresas irão desaparecer e deixarão lacunas, por isso manter bons relacionamentos é fundamental. Cuide de todo ecossistema de sua empresa, veja os parceiros como uma família, em que um depende do outro.

SebraePara empresas que estão com caixa para superar a crise, vale a pena fazer empréstimo para investir no e-commerce?

RS – A maneira mais adequada de reagir é imaginando o pior cenário possível, com mais 60 ou 90 dias de crise. Se você não tem caixa para manter sua empresa funcionando neste período, definitivamente, não vale a pena arriscar. Mas se você está capitalizado para se manter, é uma chance de comprar ativos, com linhas de créditos com prazos e carências interessantes, além das iniciativas como o Fampe, oferecido pelo Sebrae. Em momentos de crise temos que ser o mais conservadores o possível. Se você acredita que vai demorar 60 dias para se recuperar pós-crise, multiplique isso por dois ou três. É fundamental manter o caixa para manter a vida útil dessa empresa. A hora é de manter a saúde da empresa, novos investimentos devem ser feitos com pé no chão. Só assuma riscos de forma calculada e planejada.

 

Fonte: Sebrae

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