Deus Salve o Rei e o teste da TV para se aproximar das séries


Inspirada em Game of Thrones, a novela chama a atenção pela estética grandiosa

Se você já assistiu a Deus Salve o Rei, deve ter notado a fotografia grandiosa e o nível de detalhamento da direção de arte. Tornar a trama verossímil a um país tropical que não viveu um modo de produção medieval e que não dispõe de castelos, igrejas e paisagens clássicas exige muito trabalho. Com inspiração temática em séries como Game of Thrones e Vikings, a novela da Globo encarna o primeiro grande esforço da emissora para se aproximar da estética vista em séries internacionais.

Com o desafio de manter a qualidade de produção por mais de 170 capítulos — uma temporada de GoT tem  10 —, a equipe da Globo precisou de um extenso trabalho de pesquisa de imagem e produziu 700 horas de material gravado até agora. Já a equipe de mais de 40 profissionais de efeitos visuais têm a tarefa de usar a tecnologia a favor da história — seja ao transformar uma cenografia bruta em uma floresta digital 3D, transformar poucos figurantes em centenas de pessoas para uma cena de batalha ou criar um castelo inteiro digitalmente.

Meio & Mensagem conversou com o diretor da trama, Fabricio Mamberti, e com o gerente de operações de tecnologia da Globo, Fernando Alonso, sobre a renovação do formato das novelas e sobre o mercado de efeitos visuais no Brasil.

Como você avalia a evolução narrativa das novelas no Brasil até a produção de Deus Salve o Rei?

Fabricio – Trabalhamos com efeitos visuais desde os anos 80 na Globo, começamos junto com a TV americana, obviamente em uma escala menor. Os efeitos visuais eram muito utilizados nas chamadas do Fantástico e essas coisas, e depois foram migrando para a dramaturgia. Na concepção inicial de Deus Salve o Rei, já sabíamos exatamente o que poderíamos ter de recurso para executar o roteiro. Posso misturar uma locação e aplicar elementos 3D, por exemplo, e quando temos o conhecimento necessário do processo ajuda muito a produção. O que mudou é a velocidade das coisas, se antes levávamos quatro dias para renderizar um material, hoje levamos um ou dois. Já temos 200 terabytes de conteúdo até agora e criamos uma biblioteca com os elementos que captamos até então, que pode ficar de legado para outras novelas.

Deus Salve o Rei bebeu muito na fonte de séries internacionais. Qual é o desafio de fazer essa transição do público de novelas para o público de séries?

Fabricio – Esse é um caminho natural para a TV aberta. Nos anos 1990 a TV americana tinha um complexo altamente popular e estava entrando em crise criativa, do ponto de vista de autores e produtos. Então houve a chegada de diretores de cinema à TV, e a TV aberta brasileira de certa maneira respirou um pouco disso. Fomos muito impactados por essa loucura de séries e filmes com temas tão diversos. Se você olhar para a grade da Globo hoje verá que temos produtos muito distintos e que falam com vários públicos. Acho que Deus Salve o Rei é uma coisa nova que mistura um pouco a série e a novela, traz várias coisas boas e outras sobre as quais a gente pode refletir e melhorar. Essa foi uma primeira semente plantada com referências que são muito forte para nós, como Game of Thrones e Vickings, e está trazendo muitas pessoas que normalmente só assistem a séries e que não estavam assistindo à TV Globo para a novela.

Quando criei esse projeto com o Daniel Adjafre, queríamos trazer alma da série sem perder elementos da novela, que é um produto legitimamente brasileiro e que exportamos para mais de 140 países. Do ponto de vista narrativo, por uma questão de produção, em uma novela não é possível manter cenas de ação e batalhas o tempo todo porque você perde história e é muito difícil produzir. Já que temos 174 capítulos, temos de fazer o blend dos públicos e trazer um pouco o melodrama e o romance, porque também temos o público da dona Maria, do interior, que consome esse produto. Essa novela é um primeiro passo, mas os dois formatos vão conviver, pois a novela é parte do brasileiro.

Considerando a experiência com Deus Salve o Rei, quais tendências vocês identificam para o modelo de consumo de novelas e séries?

Fernando – Deus Salve o Rei tem sido um fenômeno interessante, porque o pessoal tem assistido à novela em binge watching. Às vezes a pessoa não assiste no dia a dia, de forma linear, mas quando chega o final de semana assiste a seis episódios de uma vez, o que não é comum para uma novela. As pessoas têm assistido como uma série.

Fabricio- Na TV americana está havendo um movimento contrário, das “superséries”, de séries maiores com 50 ou 60 capítulos. Isso é praticamente uma mininovela, então de certa maneira as novelas estão invadindo as séries também. Hoje há tantas janelas e todo mundo está buscando algo diferente, então as referências se misturam. Essa sempre foi a história da criação, seja na pintura, no cinema ou no teatro. É assim que se constroem coisas novas.

Qual é o perfil dos profissionais que trabalham com efeitos visuais?

Fernando – Temos um grupo de 40 pessoas divididos em grupos de formação como engenharia e TI, que são mais técnicos, outros são designers e artistas. Dentro do projeto nós dividimos os profissionais em pequenos núcleos e grupos de montagem — pode ser modelagem 3D, texturização, animação, cenografia 3D, etc. Muitos dos nossos profissionais se formam conosco e depois vão trabalhar no exterior.

O que deve aprender quem quer trabalhar nessa área?

Fernando – O mercado brasileiro para a área é muito pequeno, então ainda formamos muita gente dentro da própria Globo. Além disso, algumas técnicas e softwares são proprietários e inacessíveis, então temos conversado com parceiros de tecnologia para disponibilizar versões gratuitas para que as pessoas possam aprender. Mas de forma geral, é preciso estudar muito os softwares especializados, linguagem, fotografia e estética. Essa área exige uma composição de arte e técnica: não basta apenas dominar um software, é preciso entender de conceitos de lentes, cor, composição e disposição de objetos. Nosso critério também é bem rigoroso para escolher os profissionais, geralmente demoramos bastante tempo até fechar o time.

Fabricio – Para quem está no interior do Brasil e tem pouco acesso a esse aprendizado, também é muito importante ter suas próprias referências e procurar informações na internet, que trazem algum direcionamento para entender esse universo. Hoje o mundo está aberto na internet e vemos essa efervescência dos games, então aprende-se também vendo o material já finalizado e buscando entender como foi o processo. Ter sua própria filmografia e referências que te tocam também naturalmente trazem aprendizado.

Meio e Menasagem

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