A ECONOMIA BRASILEIRA NA BERLINDA


DILSON M. BARRETO
ECONOMISTA

Seja qual for o resultado do impeachment, não haverá qualquer alteração no desempenho da economia brasileira, pelo menos neste ano de 2016. A situação continuará confusa e por maiores que sejam realizadas acordos pacificadores, é difícil o restabelecimento do grau de confiança dos diversos agentes econômicos no curto prazo, mesmo que novas recomposições ministeriais, com destaque para a área monetário-financeira se procedam por força das reais necessidades de estabelecer um novo rumo para o País. Ainda durante este primeiro semestre os ânimos continuarão alterados, dificultando a aprovação de medidas corretivas que garantam as mudanças necessárias. Tudo indica que os diagnósticos realizados pelo Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da Fundação Getúlio Vargas e pelo Fundo Monetário Internacional se manterão em vigor. O maior erro do Governo e dos próprios políticos foi deixar que a crise se agravasse ainda mais em 2.015, ampliando o processo de desaceleração da economia que deverá continuar ocorrendo em 2.016. Os problemas internos e externos que anteriormente emperravam a engrenagem econômica, tornam-se ainda mais evidentes, neutralizando possíveis conversas que sejam feitas entre os políticos dos vários partidos e o Governo para debelar a crise. A instabilidade continuará persistindo ainda por um bom tempo, seja qual lado saia vitorioso, isto porque os erros cometidos na condução da política econômica nos últimos anos e a agressividade exuberante difícil de ser apagada a curto prazo, além de deixar profundas marcas, concorrerão para dificultar uma mudança de rota. O ranço da derrota e a falta de civilidade democrática, se não contornados, contribuirão para a permanência desse estado de coisas por algum tempo mais.

Analisando os recentes dados publicados pelo IBRE/FGV relacionados ao período janeiro a março de 2.016, observamos que a situação da economia brasileira continua bastante fragilizada, com a maior parte dos indicadores piorando à medida que os meses vão passando. Assim, enquanto em janeiro aquele Instituto fazia uma previsão do Produto Interno Bruto (PIB) com queda de -3,0%, o consumo das famílias reduzindo 3,1%, a formação bruta do capital tendo uma queda de 8,5%, as importações tendo uma redução de 12,7%, a indústria de transformação apresentando um crescimento negativo de 9,5% e a construção civil encolhendo 4,1%, os resultados observados no mês de março evidenciaram um quadro menos promissor: PIB -3,4%, consumo das famílias -4,7%, importação -10,2% (melhoria talvez pela perspectiva de melhora no nível de confiança da atividade industrial estimulado pelas exportações), indústria de transformação -9,2%, construção civil -2,7%, sendo acompanhado por outros dois segmentos que anteriormente não exerciam tanta pressão sobre o Produto Interno Bruto: o comércio, com perspectiva de um crescimento negativo da ordem de 7,2%, e o setor transportes (-8,3%). Conforme avaliação realizada pelo IBRE, levado pelo aumento do seu grau de endividamento, queda no nível de renda e ameaça cada vez mais forte de desemprego, “o processo de forte contração da demanda doméstica permanece em andamento, sem sinais de desaceleração”. Tudo isto sem falar no endividamento público que também não para de crescer, dificultando o ajuste fiscal.  Em termos de cenários projetados para o final do ano em curso, em janeiro a estimativa era de um crescimento negativo do PIB em 3,0%. Já no mês de fevereiro o painel do IBRE toma uma nova performance, com os otimistas prevendo um crescimento negativo de apenas 2,5%, e os pessimistas fixando-se em -4,0%. Como o Fundo Monetário Internacional corrigiu recentemente sua estimativa para o PIB do Brasil em -3,8%, é possível que, até encerrar-se o ano de 2.016 com ou sem governante novo, esta previsão pessimista venha ocorrer. A única boa notícia é que, mesmo considerando os sinais de enfraquecimento da economia mundial, as exportações brasileiras vêm apresentando crescimento positivo, contrabalançando os números negativos presentes nos demais setores da economia e permitindo com isso diminuir significativamente o déficit em conta corrente, fato este que contribui para reduzir a vulnerabilidade externa do País.

Já foi demonstrado que a política de juros elevados para conter a inflação tornou-se inócua e que esta está cedendo justamente pelo alto índice de desemprego, recessão persistente e continuada que reduz o consumo das famílias, não permitindo também às empresas ajustarem seus custos aos níveis da inflação, e também pelo beneplácito da queda temporária da taxa de câmbio. Segundo os diversos analistas, a situação da economia brasileira deverá prolongar-se até, pelo menos o primeiro trimestre de 2.017, continuando assim os vai e vens para colocá-la na direção correta. Tudo leva a crer, pelos dados até agora divulgados, que a recessão irá aprofundar-se ainda mais e o desemprego poderá alcançar a casa dos dois dígitos. Enquanto em 2.015 a destruição de empregos atingiu o volume de 1,64 milhão, espera-se para 2.016 que o número de desempregados alcance o montante líquido de 2,2 milhões. Para os pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE), enquanto 2.015 teve como destaque as fortes demissões na construção civil e na indústria de transformação, neste ano de 2.016 serão os setores comércio e serviços (que conjuntamente empregam mais de 70% da força de trabalho) que, embalados pela onda da deterioração do consumo das famílias e da crescente inadimplência, passarão a apresentar mais dispensas.

O processo político em curso indica que chegou a hora da verdade. Ninguém espere, após concluído o processo de impeachment, soluções radicais para ajustar a economia. Mesmo sendo fundamentais para colocar a ordem econômica no seu devido lugar, elas não virão de imediato tanto de um lado como de outro. Por enquanto, como não existe mágicas, a economia continuará reprimida, permanecendo na berlinda por mais algum tempo, esperando que os jogadores apostem suas últimas fichas. Muita água rolará antes que a racionalidade venha predominar entre os agentes econômicos. O importante agora é torcer para que o radicalismo não se acentue e a paz e a concórdia venham reinar no seio da sociedade eliminando-se os divisionismos preconceituosos intencionalmente difundidos num processo separatista que apenas serviu para cultivar o ódio. O momento agora é de entendimento e união nacional pelo bem do Brasil. Somente assim encontraremos uma saída.

 

 

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