Compras chinesas de grãos dos EUA caem ao menor nível em sete anos
As aquisições chinesas de produtos agrícolas norte-americanos, descontando a soja, caminham para o menor patamar em sete anos, mesmo diante do compromisso assumido por Pequim de investir ao menos US$ 17 bilhões anuais em mercadorias do setor dos Estados Unidos.
Desempenho entre janeiro e setembro
No acumulado de janeiro a setembro, o volume negociado alcançou US$ 7,2 bilhões em itens que vão de carnes ao milho. Trata-se do pior resultado para o período desde 2019, ano que marcou o ápice da primeira disputa comercial entre as potências globais.
Apesar de o país asiático demonstrar estar no caminho para cumprir a meta destinada exclusivamente à soja — que segue um acordo separado —, pairam dúvidas sobre um possível descumprimento no restante do pacto. A Casa Branca evitou esclarecer se a contagem do prazo teve início após o anúncio de maio ou se aguarda a efetivação dos cortes tarifários propostos por Pequim, medidas que ainda não foram concretizadas.
Pressão política e frustração no campo
Esse cenário de lentidão comercial alimenta incertezas sobre uma possível recuperação das importações a curto prazo, gerando insatisfação entre produtores locais que lidam com custos elevados de combustíveis. A problemática adquiriu relevância política em meio à disputa eleitoral, com democratas buscando atrair votos em redutos agrícolas tradicionalmente alinhados ao Partido Republicano.
“Nossos produtores são patriotas, mas há muitos silos cheios de grãos e, certamente, uma vontade de ver esse comércio acontecer”, afirmou Tim Lust, diretor-executivo da National Sorghum Producers, entidade que representa produtores de sorgo. “A soja está sendo negociada, mas outras commodities não.”
Concorrência acirrada e o papel do Brasil
Especialistas apontam que, ainda que ocorra uma aceleração, alcançar a meta exigirá que Pequim mobilize empresas estatais para impulsionar as transações, esbarrando na baixa demanda interna e na concorrência internacional. O sorgo norte-americano, por exemplo, perdeu espaço devido à entrada do Brasil no mercado chinês, concretizada em setembro de 2025.
O setor de carnes também lida com barreiras parecidas, impulsionado pela farta oferta interna na China e pelos preços elevados da carne bovina nos EUA, decorrentes da retração dos rebanhos. Ademais, cerca de metade da capacidade de abate bovino norte-americana permanece sem permissão para exportar, sob alegações de detecção de resíduos químicos não permitidos.
“Muito disso parece depender de até que ponto a China recorrerá às empresas estatais para fazer essas compras”, afirmou Darin Friedrichs, cofundador da Sitonia Consulting, empresa de inteligência do mercado agrícola especializada na China. “É difícil chegar a US$ 17 bilhões em produtos que não sejam soja sem compras direcionadas e realizadas fora das condições normais de mercado.”
Fonte: G1 Economia