Irmãs disputam à bala comando de torcida organizada na Argentina
A rotina pacífica em Villa Maipú, na Grande Buenos Aires, deu lugar ao medo com uma disputa inédita no futebol argentino: duas irmãs enfrentam-se a tiros pelo comando da principal torcida organizada do Chacarita Júnior.
O poder das barras bravas na Argentina
Conhecidas como barras bravas, essas facções exercem forte influência nos arredores dos estádios, controlando negócios ilegais altamente lucrativos. O leque de atuação inclui cambistas, exploração de estacionamentos, comércio de alimentos e camisas, além do tráfico de drogas. Os líderes frequentemente exibem conexões políticas e capacidade de mobilização popular.
“Você só pode estar brincando. Sobre a barra não se fala”, respondeu um morador local de aproximadamente 60 anos ao ser questionado sobre o tema.
A guerra entre as irmãs Molina
A torcida do Chacarita Júnior, clube da segunda divisão, destaca-se no cenário nacional por ser a única liderada por uma mulher e por enfrentar uma intensa rebelião interna liderada por sua própria irmã.
Angélica Molina, de 60 anos, comanda a facção oficial chamada “Famosa Barra de San Martín”. Do outro lado está a dissidência batizada de “Los Pibes de Chacarita”, encabeçada por sua irmã Ana Molina. A rivalidade explodiu em um tiroteio no último dia 5 de setembro, deixando quatro feridos após a derrota do time para o Atlanta.
O jornalista Gustavo Grabia, especialista no tema, definiu a situação em declaração a um programa de YouTube do Infobae:
“É uma história única no futebol argentino e em todo o planeta. Se, com as naves de Elon Musk,chegarmos em algum momento a Marte ou Vênus, encontrarmos vida parecida com a nossa e contarmos essa história, dirão que não é mentira”
Origem da liderança e disputas financeiras
A ascensão de Angélica ao poder ocorreu por meio de sua união com Raúl Escalante, conhecido como Muchinga, antigo chefe da organizada e figura influente na Associação de Futebol Argentino. Quando ele foi convidado a integrar a diretoria do clube em 2017, assumiu o posto de liderança para não perder o controle financeiro do grupo.
Com o desgaste gerado pelo estilo centralizador de Angélica e após a invalidez de Escalante — que sofreu um AVC antes de falecer em maio de 2024 —, ela assumiu o controle definitivo ao lado do filho, Diego Canteros. Essa concentração de poder gerou revolta em antigas lideranças, abrindo espaço para que Ana Molina organizasse a facção dissidente.
O conflito escalou ainda mais após desentendimentos sobre a divisão de lucros, ameaças de morte e a decisão de Angélica de registrar em seu próprio nome as músicas entoadas pela torcida. A disputa também envolveu o controle do poliesportivo do clube e o domínio do tráfico de drogas na região, com cada facção alinhada a cartéis rivais.
Apesar da violência nos arredores do estádio, o cotidiano transcorre distante dos olhos dos sócios na sede social do clube, localizada a dez quilômetros de distância, onde funcionários afirmam desconhecer a existência das irmãs que hoje ameaçam a segurança da comunidade.
Fonte: Folha Esportes