MPT investiga políticos por incentivo a demissões de eleitores de Lula
O Ministério Público do Trabalho registrou um aumento expressivo nas denúncias de assédio eleitoral após o encerramento das eleições presidenciais de 2026. Das 2.177 ocorrências recebidas pelo órgão ao longo do ano, mais de 427 foram protocoladas após a confirmação da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o equivalente a quase 20% do total. O salto nas notificações acompanha uma onda de publicações em redes sociais liderada por figuras públicas e influenciadores digitais, que passaram a estimular o desligamento de trabalhadores, a recusa de novas contratações e o boicote a comércios ligados a eleitores do Partido dos Trabalhadores.
Crescimento das denúncias no MPT Entre os casos monitorados, parlamentares e criadores de conteúdo digital utilizam plataformas online para pregar abertamente a retaliação a profissionais com base em suas escolhas políticas. A vereadora de Londrina Jessica Ramos Moreno, conhecida como Jessicão (PL), publicou um vídeo com uma ordem direta a empregadores: “Você tem uma empregada que é petista? Demita! Tem um funcionário que é petista? Demita!”, escreveu a vereadora de Londrina Jessica Ramos Moreno, conhecida como Jessicão (PL).
Em publicações de tom semelhante, a influenciadora Josiflora, que reúne mais de um milhão de seguidores, orientou o público a negar qualquer tipo de assistência ou oportunidade a eleitores do atual governo. “Não ajude petista: na fila da regulação, em pedido de emprego, em nenhum tipo de favor”, escreveu a influenciadora Josiflora, que tem mais de 1 milhão de seguidores no Instagram.
Impacto nas relações de trabalho O empresário e influenciador Rapha Hanzol também gerou repercussão ao anunciar publicamente a dispensa de uma de suas colaboradoras sob o argumento de desalinhamento com os valores de sua empresa. “Hoje eu vou demitir a minha melhor funcionária. E essa será a decisão mais acertada do ano. Quando a pessoa não entende sobre a cultura, não respeita os nossos procedimentos, quando ela não se adequa ao nosso jeito de trabalhar, é importante que ela não trabalhe, que ela não contamine e que ela não esteja presente para que a gente comece a voltar a se orgulhar do que produzimos”, afirmou.
No Rio de Janeiro, a deputada estadual Índia Armelau (PL) publicou mensagens direcionadas a empresários defendendo o veto a profissionais que mantenham oposição ideológica. “Não contrate quem odeia empresários. Quem gera empregos merece respeito”, escreveu. A publicação foi acompanhada da frase: “Eu não tenho dúvida de que fomos roubados. Ponto”.
Medidas judiciais contra autoridades Diante da repercussão, as autoridades começaram a adotar medidas concretas contra os propagadores desse tipo de conteúdo. Nesta terça-feira (27), o MPT do Rio de Janeiro protocolou um pedido de indenização no valor de R$ 500 mil contra a deputada estadual devido ao incentivo a dispensas motivadas por ideologia política.
Além disso, o procurador do Trabalho Igor Sousa Gonçalves, coordenador nacional da Coordigualdade, destacou que a tentativa de transformar divergências partidárias em critérios trabalhistas é uma grave infração à legislação brasileira. “Nesses casos, o Ministério Público do Trabalho tem todo um regramento que impede esse tipo de discriminação do trabalhador pelo voto, pela opção política dele”, afirmou.
O procurador ressaltou ainda que as investidas contra funcionários violam pilares fundamentais da convivência em sociedade. “Há uma violação que não atinge somente o direito daqueles trabalhadores e trabalhadoras atingidos, mas atinge toda a democracia, toda a sociedade.”
Responsabilização de terceiros Questionado sobre o alcance das investigações, o representante do MPT confirmou que influenciadores e figuras públicas que incitam a perseguição corporativa também podem ser responsabilizados perante a Justiça. “Os terceiros que utilizam as redes sociais para incentivar as empresas a demitir, a perseguir e retaliar os trabalhadores por suas escolhas políticas também podem ser responsabilizados”, afirmou Igor Sousa Gonçalves.
Para coibir novas ocorrências, o órgão mantém canais abertos para o recebimento de denúncias de forma sigilosa e reforça que a proteção aos direitos trabalhistas permanece inalterada mesmo após o fim da disputa eleitoral. “O voto é livre e secreto. Ninguém é obrigado a revelar em quem votou, e ninguém pode ser punido pela escolha que fez. Quem sofreu ou presenciou esse tipo de pressão pode denunciar pelo site do MPT, de forma remota e sigilosa. Guardar provas como prints, áudios, mensagens e nomes de testemunhas ajuda na apuração”, reforçava um post publicado nesta segunda-feira (26).
Fonte: G1 Economia