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Caderno Mercado

Propostas de crédito por candidatos podem elevar taxa de juros

Propostas de crédito por candidatos podem elevar taxa de juros

Plano de estímulo financeiro defendido por políticos durante campanhas esbarra em limitações econômicas fundamentais e pode encarecer empréstimos.

A ilusão da expansão automática Em sua entrevista à Globo na semana passada, o presidente Lula defendeu o que chamou de “maior política de crédito que o país já conheceu”. Flávio Bolsonaro e sua assessora Daniella Marques também propõem políticas para oferecer mais crédito, usando a Caixa como “o grande braço de apoio” para isso.

Por trás desses discursos, está a ideia de que políticas de expansão de crédito expandem o crédito. Parece óbvio, mas não é bem assim.

Analogia do mercado Para entender o impacto, vale comparar com a agricultura e a arte. Um programa de subsídios à compra de laranjas impulsionaria a demanda, levando a preços (ou expectativas de preços) maiores. Isso levaria produtores rurais a alocar uma área maior para esse cultivo, gerando maior produção de laranjas.

Porém, um programa de estímulos à compra de quadros de Tarsila do Amaral não vai gerar mais quadros dela, que morreu há 53 anos. A demanda por quadros aumenta, mas a oferta não tem como reagir. Assim, os preços dos quadros sobem, mas a quantidade não muda.

O comportamento do crédito As políticas de estímulo ao crédito defendidas pelos candidatos levam a maior demanda por crédito. Contudo, só vão aumentar a quantidade de crédito se a oferta responder. A oferta de crédito é dada pelo dinheiro que foi poupado pelas famílias, pelo que foi poupado pelo governo (os impostos menos os gastos) e pelo que tomamos emprestado do exterior.

Assim como nos casos das laranjas e dos quadros, maior demanda por crédito leva a maiores preços. O preço do crédito é a taxa de juros. Como resposta a esse aumento na taxa de juros, famílias podem poupar mais, estrangeiros podem trazer mais dinheiro para investir no Brasil e o governo pode cortar gastos ou aumentar impostos. A pergunta, então, é sobre o tamanho dessa resposta.

Impacto nos investimentos Cortes de gastos e aumentos de impostos são tratados pelos candidatos como um assunto à parte, desligado da taxa de juros. As decisões de consumo das famílias variam pouco com a taxa básica de juros. Pouca gente vai mudar os planos de consumo porque a taxa Selic foi de 13% para 15%.

Empresas, porém, modificam seus planos de investimento se a taxa de juros real aumenta em dois pontos percentuais —projetos que pareciam vantajosos à taxa menor podem deixar de ser com juros maiores. Assim, essas empresas deixam de tomar crédito.

Portanto, o aumento na taxa de juros gerado pelo aumento na demanda por crédito deve reduzir a tomada de crédito das empresas muito mais do que deve aumentar a quantidade de dinheiro poupado pelas famílias.

Conclusão sobre o endividamento Sobram os fluxos de capital estrangeiro. O aumento de juros pode induzir estrangeiros a poupar dinheiro no Brasil. Isso aumenta a oferta de recursos que serão emprestados por quem está demandando crédito. Esse efeito de fato existe, mas não é tão grande assim —se fosse, a nossa taxa básica de juros não conseguiria se manter tão alta por tanto tempo.

Portanto, políticas de expansão do crédito expandem o crédito por um lado, mas levam a juros maiores, cortando o crédito das empresas, que reagem aos juros maiores. A expansão líquida do crédito depende muito de quanto aumenta nosso endividamento externo.

Candidatos precisam, portanto, escolher entre (1) políticas que expandem o crédito e (2) medidas que levam a uma taxa de juros básica menor. Ou podem continuar prometendo aumentar a oferta de quadros de Tarsila do Amaral.

Fonte: Folha - Mercado