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Caderno Mercado

Líder de seita no Quênia é condenado pela morte de 191 pessoas

Líder de seita no Quênia é condenado pela morte de 191 pessoas

O tribunal da cidade portuária de Mombasa declarou o líder religioso queniano Paul Mackenzie e outros 28 membros de sua organização culpados pelo assassinato de 191 pessoas. Entre as vítimas fatais da seita apocalíptica, 190 eram crianças. A decisão foi anunciada após uma sessão de julgamento de oito horas conduzida pela juíza Diana Mochache, marcando o primeiro veredito contra o grupo pelas acusações de homicídio.

Embora os réus tenham alegado inocência sob o argumento de que ninguém era obrigado a tirar a própria vida, a magistrada destacou que a comunidade via Mackenzie como “porta-voz de Jesus”. A pena definitiva do religioso e dos demais condenados deve ser oficializada em 6 de novembro. O grupo ainda responde perante a Justiça por crimes que envolvem terrorismo, radicalização e privação de ensino infantil.

Jejum forçado e rituais na floresta de Shakahola

As investigações apontam que o autoproclamado pastor instruía seus adeptos a deixarem seus próprios filhos sem alimentação até morrerem, com a justificativa de que assim poderiam “encontrar Jesus”. Aqueles que não aceitavam a imposição enfrentavam castigos físicos severos. Segundo revelou um dos acusados, a orientação de Mackenzie era clara: qualquer um que “resistisse à ordem de jejuar deveria ser forçada a ir para o céu com socos e pontapés”.

Na doutrina do grupo, tratamentos médicos eram classificados como “contra a doutrina” e a medicina tradicional era tratada como algo “maligna”, enquanto qualquer tipo de instrução escolar formal era terminantemente proibida. No local de isolamento, os sepultamentos clandestinos eram chamados internamente de “casamentos”, momento em que os falecidos “eram homenageados como tendo se casado com Jesus”. Entre os episódios relatados no tribunal, uma mulher grávida foi proibida de alimentar o filho recém-nascido, que sucumbiu em 12 dias. Segundo testemunhas, “Ela foi instruída a jejuar até a morte e seguir seus filhos”.

O avanço das denúncias contou com a colaboração de Enos Amanya Ngala, ex-chefe de segurança da seita, que aceitou um acordo de confissão para atuar como testemunha da acusação.

O horror descoberto nas covas clandestinas

O caso começou a vir a público no início de 2023, quando criadores de animais da região avistaram os primeiros restos humanos em março daquele ano. A prisão de Mackenzie ocorreu em seguida, desencadeando escavações que revelaram mais de 400 corpos enterrados em valas rasas na densa mata costeira de Shakahola.

Para desenterrar as vítimas, equipes locais contrataram 17 trabalhadores braçais, que recebiam cerca de US$ 8 por dia. Os relatos desses trabalhadores ilustram a dimensão da tragédia. “Cada cova que encontrávamos tinha pelo menos três corpos”, afirmou James, um dos escavadores, acrescentando que “Alguns dos restos eram de crianças com poucas semanas de idade.”

Em um dos pontos mais profundos da mata, o cenário foi ainda mais estarrecedor. “Certa vez, encontramos 12 corpos de crianças enfileirados dentro de uma cova. Era enorme, os corpos estavam dispostos como se fossem roupas, um em cima do outro”, relatou James, recordando que muitas vítimas infantis tinham “mãos e pés amarrados e os corpos enrolados em lençóis”.

Salim Karisa, outro morador que auxiliou nos resgates, comentou a rotina secreta dos fiéis, que ocasionalmente iam até a cidade buscar água do rio Galana: “Às vezes, carregávamos pessoas na motocicleta em direção à floresta”, lembrou. “Mas era tão secreto e planejado que ninguém sabia dizer o que acontecia lá dentro.” Karisa também descreveu a agonia das vítimas encontradas com vida: “Nós carregávamos alguns para fora da floresta, mas eles eram tão frágeis que morriam nos nossos braços”.

A perda atingiu duramente famílias inteiras, como a de Stephen Mwiti, de 48 anos. Sua ex-esposa estava entre os 28 condenados por assassinato. “Todos os meus seis filhos morreram na floresta de

Fonte: Mundo