Pular para o conteúdo principal

Caderno Mercado

Mensagens revelam que Daniel Vorcaro acessou inquérito sigiloso e acionou espiões

Mensagens revelam que Daniel Vorcaro acessou inquérito sigiloso e acionou espiões

Conversas extraídas do aparelho celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro apontam que ele teve acesso, por intermédio de múltiplos interlocutores, a detalhes de uma investigação sob sigilo que apurava suspeitas de insider trading envolvendo o Banco Master e o empresário Nelson Tanure.

A articulação com a rede clandestina e o avanço da apuração

De posse desses dados, Vorcaro acionou Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário, com o objetivo de levantar mais informações sobre o caso por meio de uma estrutura clandestina que operava sistemas da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. Além disso, o ex-banqueiro avaliou a possibilidade de se antecipar e repassar informações às autoridades para tentar evitar medidas cautelares, a exemplo de mandados de busca e apreensão.

Em 15 de fevereiro de 2024, às 11h36, Vorcaro recebeu um aviso de um advogado sobre o tema: “Compliance do Master pediu informações sobre processos. Desse não temos notícia”. O alerta veio acompanhado de uma imagem indicando a existência de um inquérito policial instaurado para apurar supostos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e o mercado de capitais direcionados a Daniel Bueno Vorcaro e outros.

Minutos depois, às 11h37, Vorcaro repassou a imagem para Sicário com a instrução: “Dá uma olhada urgente pra mim”. A resposta veio rapidamente: “Agora”. Na sequência, foi encaminhada a mensagem: “Já estou em contato com a tropa aqui. A gente vai dar uma atenção especial nessa situação aí”. Conforme apuração que corre no Supremo Tribunal Federal (STF), Sicário repassou os dados a uma célula de espionagem composta por um policial federal aposentado e outro da ativa, investigados no âmbito da Operação Compliance Zero.

A atuação de Fábio Medina Osório e a proposta de cooperação

Os registros obtidos revelam que, no mesmo dia, o advogado Fábio Medina Osório, que exerceu o cargo de advogado-geral da União durante a gestão de Michel Temer, também dialogou com Vorcaro sobre o caso e repassou a íntegra dos autos do inquérito. Osório manteve contato com o ex-banqueiro entre 2023 e 2025.

Na data em questão, Osório enviou uma mensagem mencionando ter identificado “um assunto preocupante”. Após conversas telefônicas, o advogado remeteu um resumo e os documentos completos da investigação, sugerindo: “Posso ir lá e me apresentar como responsável por teu compliance”. Em seguida, acrescentou: “Quem coopera não tem razão para sofrer medidas cautelares. Essa deve ser nossa primeira preocupação. Vou pensar num check list de documentos que poderíamos propor ao MPF para juntar como forma de cooperar nas investigações e submeter ao teu crivo”.

Vorcaro ponderou que poderiam realizar uma reunião por videoconferência, mas pediu cautela quanto ao contato imediato. Osório argumentou: “Não vejo risco nessa semana. Fica tranquilo. Não reuniram elementos ainda. Quando nos antecipamos, e cooperamos, esvaziamos a cautelar”. E complementou: “E ainda por cima em roupagem de compliance”. O jurista ainda afirmou: “Vamos cuidar disso. O procurador sabe a quantidade de amigos que tenho no MPF”. Apesar das tratativas nos dias seguintes, o ex-banqueiro não prosseguiu com a ideia de se apresentar ao Ministério Público.

Manifestações da defesa e desdobramentos judiciais

Questionado por meio de nota, Fábio Medina Osório declarou que obteve a cópia de um inquérito por intermédio de um jornalista. “Como se pode ver nas mensagens, repassei a Vorcaro e sugeri que cooperasse com o Ministério Público, pois era esse o objetivo da nossa proposta de compliance investigativo. Ele não aceitou e não falou mais sobre isso”, pontuou. O advogado também afirmou: “Fiquei sabendo da intervenção do Sicário através desta reportagem. Penso que esse inquérito pode dar pistas de conexões desse personagem Sicário com autoridades importantes. Fiquei sabendo de sua existência pela mídia.”

O inquérito sobre uso de informação privilegiada avançou em relação a Nelson Tanure, que virou réu em janeiro deste ano sob acusação de obter vantagens financeiras em negociações de ações da Gafisa, companhia da qual é acionista de referência. O Banco Master ingressou na ação como parte interessada, representado por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do STF. O procedimento teve origem em uma denúncia protocolada em 2022 por Vladimir Timmerman, gestor da ESH Capital.

Em nota oficial, a defesa de Tanure sustentou que o empresário não tem condições de avaliar o “contexto de mensagens que teriam sido trocadas por terceiros, em conjuntura que desconhece e da qual não fez parte”. O empresário rechaçou irregularidades e argumentou que a operação alvo da denúncia “foi amplamente debatida na Gafisa S/A, com a publicação de fatos relevantes antes e depois do fechamento do negócio, que passou pelo crivo e foi aprovado pela maioria dos acionistas da própria construtora, que não foi sequer incluída na acusação”. O texto, assinado pelo advogado Pablo Naves Testoni, acrescenta: “A CVM não apontou até hoje nenhuma ilicitude na assinalada operação e o delegado de Polícia Federal, que também investigou os mesmos fatos, narrou expressamente que não havia encontrado qualquer indício de suposta prática de crime”.

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado como Sicário, cometeu suicídio em março de 2026 nas dependências da carceragem da Polícia Federal em Minas Gerais.

Fonte: Folha - Mercado