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Caderno Mercado

A influência invisível das big techs e a dependência nas eleições

A influência invisível das big techs e a dependência nas eleições

Bastidores da disputa eleitoral brasileira revelam que uma fatia decisiva da campanha ocorre em instâncias que o eleitor comum mal consegue enxergar. Questões como gastos com impulsionamento, bloqueios de canais e o uso de inteligência artificial na propaganda colocam candidatos e tribunais diante das regras impostas pelas plataformas digitais.

O peso dos investimentos e os impasses na Justiça

A disparidade nos investimentos financeiros ficou evidente quando o gasto de Flávio Bolsonaro com redes sociais superou em três vezes o valor aplicado por Lula. Enquanto a campanha petista relatou barreiras para impulsionar conteúdos e questionou o alcance de vídeos de Nikolas Ferreira, o WhatsApp viu seu canal “Exército do Lula” alternar ordens de suspensão e reativação determinadas pelo Tribunal Superior Eleitoral.

A controvérsia também atingiu a inteligência artificial da Meta. Em testes realizados, a ferramenta recusou a criação de material para Lula, mas atendeu aos pedidos direcionados a Flávio Bolsonaro, com variações de resposta conforme o país de origem da conta. A empresa rejeitou acusações de favorecimento, justificando que as discrepâncias ocorreram devido a falhas na identificação dos candidatos e na aplicação da legislação eleitoral do Brasil.

Concentração de mercado e o império da Meta

Dessa forma, a Meta acumula múltiplos papéis na infraestrutura digital ao atuar simultaneamente como fornecedora de inteligência artificial, comerciante de publicidade, gestora de redes sociais e controladora do principal aplicativo de mensagens instantâneas do mercado nacional.

Levantamentos do Digital 2025 mostram que os brasileiros com 16 anos ou mais passam, em média, três horas e meia por dia conectados às redes, utilizando cerca de oito plataformas mensais. No entanto, a suposta variedade de opções contrasta com a alta concentração corporativa.

Dados de 2025 da Mobile Time e da Opinion Box indicam que o ecossistema da Meta — composto por WhatsApp, Instagram e Facebook — está instalado em 99%, 91% e 76% dos smartphones pesquisados. Como os públicos se sobrepõem, migrar de uma rede para outra mantém o usuário sob o mesmo centro de decisões corporativas.

Barreiras estruturais e o custo de ficar de fora

A dependência tecnológica é reforçada por práticas comerciais, a começar pelos planos de celular que oferecem navegação ilimitada em aplicativos específicos. Quando a franquia de dados se esgota e apenas determinados serviços continuam acessíveis, o plano contratado passa a influenciar diretamente onde o cidadão se informa.

Estudos acadêmicos apontam que o volume acumulado de usuários e dados cria barreiras intransponíveis para novos concorrentes. Para capturar a atenção do público, uma nova empresa precisa superar a vantagem consolidada de quem já detém os contatos, mapeia hábitos e controla a infraestrutura de acesso ao consumidor.

Por outro lado, abster-se dessas ferramentas gera custos elevados. Pesquisas conduzidas por Leonardo Bursztyn e coautores demonstram como a adesão de alguns grupos amplia a pressão sobre os demais, evidenciando que o design de produtos digitais fortalece monopólios e prejudica quem opta por alternativas.

Desafios regulatórios e a necessidade de concorrência

A dependência crônica e a escassez de alternativas alimentam a opacidade do sistema. Candidatos e anunciantes continuam subordinados aos serviços cujas decisões contestam, enquanto o Judiciário recorre às próprias empresas para reconstruir fatos, limitando-se a relatórios e bibliotecas de anúncios com transparência parcial.

No Brasil, o debate costuma se restringir à moderação de conteúdos e ao controle de ferramentas. Contudo, os episódios recentes escancaram um problema estrutural de poder de mercado que independe de ideologias políticas.

A solução mais eficaz reside em políticas públicas voltadas para a ampliação da concorrência e da pluralidade comunicacional. Fomentar a liberdade de escolha de fornecedores estimula estruturas abertas, atenua a dependência e mitiga suspeitas de manipulação, evitando que o foco recaia apenas sobre publicações isoladas enquanto poucos agentes controlam as regras do jogo.

Fonte: Folha - Tecnologia